Na história, a esperança sempre vence o medo

Recentemente, Fernanda Torres fez um alerta aos manifestantes no Rio de Janeiro: as lutas sociais podem levar a situações ainda piores do que aquelas contra as quais se luta. Em tempos de ânimos acirrados e lados escolhidos, muitos inevitavelmente tomaram o aviso como uma defesa do governador Sérgio Cabral, e o compararam ao “eu tenho medo” de Regina Duarte na campanha presidencial de 2002.  Para quem for criticá-lo, contudo, convém lembrar que o alerta se baseia não num simples apelo emocional (“tenho medo”), mas num argumento que tem sido usado com alguma frequência por parte da esquerda para desqualificar os movimentos recentes no Brasil e no mundo. Neste, prova-se que o Egito “acabou mal” porque resultou em Morsi e nos militares, a Espanha “acabou mal” porque o PP derrotou o PSOE, o Brasil “terá acabado mal” se Dilma perder em 2014, como o Rio “terá acabado mal” se Garotinho se eleger.

Estas lições sobre “como se faz uma revolução” claramente expõem quem as distribui como alguém que as aprendeu em livros de história, onde revoluções e outros processos políticos aparecem concluídos, com resultados estabilizados e conhecidos, e não na prática, onde as coisas necessariamente aparecem em processo, no presente. Olhar, como se fez na época, para a vitória da direita nas eleições espanholas ocorridas como o “fracasso” d@s indignad@s, é como estar na Rússia entre março e outubro de 1917 e falar do “fracasso” da revolução (“só se conseguiu um governo provisório burguês!”), na China em 1946 e falar do “fracasso” dos comunistas chineses (“só conseguiram fortalecer Chiang Kai Shek!”), ou apontar para o massacre de Jallianwala Bagh na Índia como prova do “fracasso” de Gandhi (“ele só conseguiu que matassem centenas de indianos!”).

(Que fique bem claro, os exemplos não importam nenhum juízo de valor sobre os processos em questão. Comparações futebolísticas são igualmente boas; pense-se em quem, ao ver o 1×0 marcado pela Suécia em 58, triunfalmente concluísse: “O Brasil nunca vai ganhar uma Copa!”)

Mas há alguma coisa de especialmente perverso em usar este argumento para desqualificar movimentos que tem a crise da democracia representativa, se não como seu objeto imediato, pelo menos como um de seus problemas centrais. Tomemos o exemplo espanhol. O 15M aparece em maio de 2011 dizendo que os dois principais partidos (PP e PSOE, o segundo dos quais então no poder) representam apenas os mesmos interesses financeiros e corporativos; o problema é a corrupção do sistema representativo, que ocorre sob os panos mas também legalmente, à luz do dia; é preciso mudar o sistema e suas condições, os mecanismos de representação e não os representantes. Seis meses depois, o PP derrota o PSOE.  Ora: se alguém diz que é preciso mudar o jogo, e não trocar as peças de lugar, não se pode apontar para uma mera troca de peças (o PP no lugar do PSOE, ou Garotinho no lugar de Cabral) como prova de seu equívoco. Se o objetivo é mudar o jogo, e apenas se trocou as peças, só o que isto demonstra é que o objetivo não foi alcançado, e não que estivesse errado.

A questão é: trocar as peças e mudar o jogo – mudanças intrassistêmicas e uma mudança de sistema – têm tempos diferentes. É óbvio que a segunda tenda a levar mais tempo que a primeira. De fato, aquilo com que muitos se ressentem em relação aos partidos é o fato de submeter a segunda ao tempo da primeira, de forma que a promessa de grandes transformações fica vinculada à vitória nas próximas eleições, e a vitória nas próximas eleições com frequência se vincula a concessões que adiam as grandes transformações para um futuro cada vez mais distante.

Evidentemente, comparar o que se passa no Egito, na Espanha ou no Brasil com processos “vitoriosos” no passado não assegura nenhuma vitória no futuro. Se o argumento que se critica aqui é falacioso, ele não deixa de conter um grão de verdade: processos históricos, vistos não do conforto de um espelho retrovisor, mas em meio à confusão do presente, são espaços em que ora se chocam e ora se combinam forças vindas de diferentes direções, interesses diversos e às vezes antagônicos, explícitos ou camuflados. Um jogo só se diz perdido ou ganho quando se pode dizer que acabou; enquanto estiver sendo jogado, estará sendo perdido e ganho a todo momento, e qualquer posição conquistada estará sempre sob risco.

É bom ter clareza desde já: nos tempos curtos, das trocas de peças e movimentos táticos, é provável que muitos resultados impalatáveis ainda estejam por vir. Mas parecemos atravessar um daqueles raros momentos, em escala tanto nacional quanto global, em que as possibilidades estão abertas para se apostar nos tempos mais longos, de mudanças mais profundas. Isto não significa que riscos não existam, nem que recuar não possa às vezes ser necessário; mas certamente significa que o medo de perdas no curto prazo não deve ser motivo para não jogar.

A falácia do argumento consiste justamente em aplicar para um processo em andamento um raciocínio que só é possível retrospectivamente. Se um evento anterior A (positivo) contribuiu para a existência de um evento posterior B (negativo), sempre se pode argumentar, depois que B tenha ocorrido, que teria sido melhor que A, por mais positivo que tenha sido na época, não ocorresse. A lógica vale igualmente para movimentos sociais e governos (sem Jango, não teria havido o golpe de 64; não fosse Allende, Pinochet não teria acontecido da mesma forma) e, inclusive, para eventos positivos que se seguem a negativos (sem brutalidade policial, o movimento não teria crescido; se Amarildo não desaparecesse, não haveria tanta pressão sobre Cabral). Além disso, um evento posterior C pode sempre reverter o juízo de valor feito: na medida em que o massacre de Jallianwala Bagh contribui para o fim do controle britânico sobre a Índia, o retorno de Gandhi deixa de ser negativo (por ter levado ao massacre), e mesmo o massacre passa a ter um sentido positivo. Esta lógica, em resumo, serve para provar qualquer coisa.

Durante muito tempo havia uma “ciência” de produzir juízos de valor sobre fatos históricos: era o materialismo histórico na sua versão mais paródica, codificada pelo estalinismo. Com ele, era possível dizer que A ou B eram positivos ou negativos em termos absolutos, porque pressupunha-se que (a) existia um ponto final da história, o comunismo, e (b) era para ele que a história caminhava inexoravelmente, de modo que (c) tudo que contribuísse para levá-la a seu termo natural, por mais horrendo que fosse, seria positivo. Se a lógica por trás do argumento serve para provar qualquer coisa, isto é porque, na ausência da crença em um ponto final para o qual a história caminha, qualquer escolha de um ponto final (um momento no qual pode-se dizer que um processo acabou, ou que resultou em B ou C) é arbitrária. A história como um todo é um jogo que está sendo jogado todo o tempo, e julgar seu sentido é sempre uma avaliação parcial, cuja condição é impor-lhe arbitrariamente um ponto a partir do qual se pode julgar. Avaliar é, assim, sempre já tomar parte no jogo, tomar partido numa luta.

É por isso que o socialista utópico inglês William Morris escrevia que as pessoas “lutam e perdem a batalha, e aquilo pelo que lutavam acontece apesar de sua derrota, e se revela não ser aquilo pelo que lutaram, e outros tem que lutar por aquilo pelo que elas lutaram sob outro nome”; e que Gilles Deleuze debochava dos “novos filósofos” franceses dizendo que é preciso ser muito estúpido para não saber que as revoluções “sempre acabam mal”. É fato que elas sempre acabam mal, no sentido descrito por Morris: se a história não acaba, é porque ela nunca chega à perfeição, e alguém sempre terá motivos para seguir lutando. Nenhuma revolução, nenhum processo político, jamais será mais que parcial, temporário, criando as condições, piores ou melhores, para que se comece tudo de novo. Mas da mesma forma que as pessoas não deixam de se apaixonar porque sabem que o amor um dia acaba, a necessária derrota de toda revolução – e a necessária derrota de toda reação, já que a história oferece provas contundentes de ambas – jamais impediu aquilo que Deleuze chamou de “devir revolucionário” das pessoas. Neste sentido, pode-se dizer que, na história, a esperança sempre vence o medo.

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Três motivos para não dizer “nem esquerda, nem direita”

É comum que se responda à frase “nem esquerda, nem direita” com o adágio: “mostre-me alguém que não acredita em esquerda e direita, e eu lhe mostrarei alguém de direita”. Mas este não é sempre o caso, pelo menos no que toca às intenções. Se é verdade que é de má fé o uso mais comum que da frase se faz, há muita gente, talvez cada vez mais, que a usa sinceramente. Aos cínicos, não há nada a dizer; eles sabem (e nós sabemos) de que lado estão. Este texto se dirige, portanto, a quem diz a frase de boa fé, na tentativa de convencê-los de que se trata de um engano tático. Falar em “tática”, aqui, é deixar duas coisas nas entrelinhas: que há motivos legítimos pelos quais alguns se sentem tentados a falar desta forma, e que as intenções com que o fazem são intenções das quais, em geral, compartilho. Dizer tratar-se de uma questão tática significa, portanto, fazer a pergunta: o uso desta frase é mais benéfico ou, pelo contrário, mais prejudicial a tais intenções? É aqui que se impõe a discussão.

1 – A frase é equívoca.

Seu sentido varia conforme o contexto e, principalmente, quem a usa. Ela significava uma coisa quando era usada, principalmente a partir dos anos 70 e 80, para se referir a lutas e sujeitos políticos que não eram reconhecidos por um lado nem por outro, ou cujas pautas eram, de alguma maneira, resistidas e/ou escamoteadas por ambos: mulheres, negros, índios, gays e lésbicas… Neste caso, queria dizer: “nenhum dos lados nos reconhece e luta por nós, por isso fazemos nossa própria luta”.

No surgimento do movimento ambiental, nos anos 70 e 80, ela tinha este significado e mais um, suplementar: o meio-ambiente, questão que demorou para ser incorporada à agenda tanto da esquerda quanto da direita (e que, na maioria dos casos, o foi no nível do discurso muito mais que na prática), nos diz respeito enquanto seres vivos e habitantes deste planeta, independentemente de preferência política. Logo, seria uma questão “nem de esquerda, nem de direita”, mas de todos.

Ela tinha outro sentido quando começou a ser usada por atores oriundos da esquerda histórica a partir dos anos 90. Neste caso, justificava a capitulação diante da realidade, agora aceita como absoluta e imutável, da economia de mercado e dos limites atuais da democracia representativa. Foi neste sentido – de “direita e esquerda (históricas) não existem” – que ela foi a consigna da dita Terceira Via, isto é, a adesão, por parte de forças políticas cuja origem remonta às lutas operárias dos séculos 19 e 20, ao neoliberalismo. “Não há mais esquerda e direita”, no sentido de projetos que de alguma forma fundamental se opõe; “há apenas nuances”. O tempo fez estas nuances cada vez mais imperceptíveis, uma fratura na democracia representativa que foi exposta de forma cristalina pela crise financeira iniciada em 2008 – em que partidos “de esquerda” como Labour (Inglaterra), PSOE (Espanha) e Pasok (Grécia) estão tão implicados quanto seus equivalentes “de direita”. É este o sentido do grito de “não nos representam” que se ouve das multidões na Europa e nos EUA: a democracia representativa, nos países onde supostamente tinha atingido sua forma mais acabada, transformou-se num sistema em que todas as opções são essencialmente a mesma, e todos os partidos respondem essencialmente a um cartel de interesses corporativos financeiros, energéticos e midiáticos.

Era também com este sentido de ruptura histórica – “ não existe” – que, no mesmo período, ela passou a ser usada por atores provindos da direita histórica. Com o fim do bloco soviético, já não existe mais projetos alternativos, “não há alternativa” (como disse Thatcher) ou “o único sabor no mercado agora é baunilha” (parafraseando Stiglitz); quem não aceita isto, é um dinossauro cujo tempo passou. O triunfalismo da direita de sempre e o oportunismo da “nova” esquerda partidária convergiam nisto: “fora nós, não há nada, e quem não vê isto, está ultrapassado”. Mas convém notar que, conforme a crise atual tem deixado claro, isto se deu não por uma convergência das agendas políticas, mas porque a “nova” esquerda (isto é, a esquerda histórica que se “renovou”) incorporou a agenda da direita, acrescentando-lhe “nuances” que o tempo desbotou por inteiro.

Em virtude desta equivocidade, é uma frase com que convém se cuidar: não só o que se quer dizer com ela pode soar de maneira muito distinta a outros ouvidos, como aquilo que soa a nossos ouvidos pode ser muito distinto da intenção, de boa ou má fé, que outros têm ao usá-la.

2 – A frase abre mão de redefinir o passado.

É no sentido de uma virada ou corte histórico, de novidade, que normalmente se emprega a frase hoje: a partir de um determinado momento, a divisão entre “esquerda” e “direita” teria perdido o sentido. A primeira coisa a fazer é observar que, enquanto o momento histórico apontado como aquele da ruptura varia e sempre encontra um novo “agora”, a frase em si já é usada assim há pelo menos 15 anos. A segunda é perguntar se o desaparecimento desta distinção política implica o desaparecimento das divisões sociais: ainda se pode falar de “pobres” e “ricos”, os que “têm acesso” e os que “não têm acesso”, os que “têm oportunidades” e os que “não têm oportunidades”? Foi nestas divisões, afinal, que a distinção entre esquerda e direita se originou. Introduzir uma distinção em termos de “mais” e “menos” – “mais ou menos” acesso, “mais ou menos” oportunidade – não parece suficiente para eliminar as divisões. No limite, sempre restam aqueles que têm “muito pouco” e os que têm “demais”; uma distância que, nas três últimas décadas tendeu, de forma geral no mundo, a aumentar.

A frase pode ser entendida como um exercício legítimo de distanciamento em relação ao desastre das experiências do “socialismo real”: os gulags, as coletivizações forçadas que levaram a mortes em massa, as ditaduras de um só partido. (Sem embargo, é curioso notar como, enquanto o socialismo real “foi testado e falhou”, o capitalismo real, em seus mais de cinco séculos de colonialismo, escravagismo, miséria sistêmica, negação de direitos e destruição ambiental, sempre nos pede que o julguemos de acordo com seu estado ideal: “é verdade que há muitos problemas – mas um dia haverá abundância para todos!”.) Mas então “esquerda” foi apenas aquilo?

O que dizer dos desejos de igualdade, liberdade e reconhecimento que animaram os indivíduos cujas lutas formaram aquilo que se veio a chamar de esquerda – e que, em muitos casos, acabaram oprimidos pelas instituições (partidos, sindicatos, estados) que contribuíram para criar? Por trás do esforço para escamotear este patrimônio e tornar “esquerda” sinônimo dos horrores feitos sob este nome, existe, no uso cínico que muitos fazem da frase, o desejo de afirmar que lutar contra as divisões que existem e buscar-lhe alternativas inevitavelmente acabará em desastre. É do papel de quem não tem interesse em que as coisas mudem dizer que o “melhor é inimigo do bom” (Voltaire), que “não há alternativa”; é do papel de quem tem o desejo de mudanças não ajudá-los. E se os desejos de mudança ainda existem, é fundamentalmente porque as divisões não acabaram, pelo contrário, estão sempre ressurgindo, em outros limites e de novas formas. E se alguém pode e deve encarnar estes desejos, é justamente aqueles que “não têm” – renda, acesso, oportunidades, reconhecimento.

Aceitar que se reduza a esquerda histórica a seus horrores não seria, então, admitir que os opressores de hoje reduzam aqueles que ontem lutaram e aqueles que hoje desejam àqueles que ontem oprimiram? Sim, os horrores foram muitos. Mas a inventividade e ousadia de milhões de homens e mulheres, quer se identificassem como “esquerda” ou não,  que acreditaram na possibilidade de alternativas; e a riqueza daquilo que eles, por mais frágil e temporário que tenha sido, souberam construir – isto também foi o que historicamente se chamou de esquerda. Permitir que esta memória suma por trás da sombra de ditadores é enterrar estes mortos de novo, negar-lhes em morte os sonhos que apenas os vivos poderão, talvez, um dia redimir. É, ainda, negar aos vivos uma herança, e participar da negação da possibilidade de seus desejos por parte daqueles que são… “vivos demais”.

3 – A frase abre mão de redefinir o presente.

Com frequência, hoje, ela é usada de boa fé por quem pensa o seguinte: “existem partidos e instituições que se dizem de esquerda, mas se comportam como direita; e existem aqueles que não são de direita, mas que, mesmo que bem intencionados, estão completamente desconectados do presente e são, portanto, inteiramente irrelevantes”. Neste caso, ela está muito próxima do sentido que movimentos à margem da esquerda “clássica” nos anos 70 e 80 lhe emprestavam: ninguém nos representa, logo temos que fazer nossa própria luta. Existe uma diferença importante entre um momento e outro, contudo, que é precisamente o fato de que, entre aquele momento e agora, houve um outro em que o sentido de “nem esquerda nem direita” foi redefinido – e foi redefinido, como vimos, por quem empregava a frase com o intuito de dizer: “fora nós, não há alternativa, e quem não vê isto, está ultrapassado”.

Quanto à segunda parte do pensamento resumido no parágrafo anterior, é bom deixar claro: dizer que “esquerda” não é sinônimo de “dinossauro” não significa que o mundo não seja habitado por inúmeros dinossauros que se reivindicam de esquerda, aparentemente imunes a qualquer meteoro que os possa extinguir. Mas o que mais importa é a primeira parte, “a esquerda que assim se diz não o é, logo não existe esquerda”. Deixemos de lado sua lógica defeituosa (se eu digo “x não é de esquerda”, eu presumo a existência de alguma coisa chamada “esquerda” com que posso compará-lo); o sentimento que ela expressa é absolutamente real e amplamente compartilhado. O problema, contudo, é que ela aceita os termos impostos por quem se está criticando: se eu digo “não existe esquerda” porque um partido “que se diz de esquerda” não o é, estou consentindo exatamente aquilo que este partido quer me dizer – que ele “é a esquerda”, e fora dele “não há alternativa”. De maneira mais geral, isso significa admitir que a esquerda se reduz àquelas forças constituídas que reivindicam o nome; e, num sentido ainda mais geral, implica aceitar a redução da política à política representativa.

É aí que se encontra todo o impasse hoje: não apenas o sistema representativo colapsou muitas das diferenças que eram relevantes para que se distinguisse “esquerda” e “direita”, ele demonstra imensas dificuldades para reconhecer novas divisões surgidas no seio da sociedade. Mais do que isso, o próprio sistema hoje implica uma divisão, cada vez mais patente, entre “não-representados” e “representados demais”. É do papel do sistema, como mecanismo de auto-defesa, negar que esta e outras divisões existem. Mas o que importa, ainda e sempre, é que elas existem e implicam lados. São os lados que se opõem ao longo dessas divisões, e os sujeitos sociais que aí se confrontam, que devem definir, hoje, o que é esquerda e direita. Quando se diz que o atual momento está “para além de direita e esquerda”, o que se quer dizer é direita e esquerda dentro do espectro representativo representam a mesma (ou cada vez mais a mesma) coisa. Mas é só a este espectro que se reduz a política?

Afirmar os desejos de mudança de hoje passa por reconhecer as divisões que os sustentam, e que aqueles que não querem a mudança têm, portanto, todo interesse em esconder. E se a divisão mais aguda atualmente é que existe entre sub- e sobre-representados, representados “demais” e “de menos”, o primeiro passo para tornar o problema visível é, justamente, negar aquilo que a política representativa tenta afirmar: que ela é o limite absoluto, fora do qual não há nada. É preciso, portanto, dizer que a política se estende para além da política representativa e constituída; que ela hoje se dá, principalmente, naquelas divisões que a política constituída pretende ignorar. É preciso, sobretudo, apontar estas divisões e torná-las claras: há, sim, várias questões hoje que opõe um “eles” e um “nós”.

Com efeito, talvez seja justamente aquele caso em que a inexistência de divisões seria mais fácil de aceitar – o ambiental – o que melhor as exponha. Porque se é verdade que a mudança climática nos põe a todos, enquanto habitantes do mesmo planeta, no mesmo barco – como no Titanic, não estamos todos neste barco do mesmo modo. Pelo contrário, a questão ambiental evidencia diferenças claras quanto à distribuição de recursos, custos e efeitos. A distribuição dos recursos marca divisões tanto entre países e regiões do mundo quanto internas à países e mesmo cidades: tanto internacional quanto nacional e localmente, alguns consomem muitos recursos enquanto outros consomem muito poucos. Os custos, igualmente, se distribuem conforme as linhas da divisão internacional do trabalho, mas também regional e socialmente dentro de cada país: o passivo ambiental e social da exploração de novos recursos cai desproporcionalmente sobre alguns países (o petróleo na Nigéria), regiões (o fracking na Carolina do Norte, nos EUA; a região norte, no Brasil) e, principalmente, um determinado tipo de população (pobres, indígenas); os lucros e benefícios vão desproporcionalmente para países, regiões e grupos mais ricos. Finalmente, os efeitos da mudança climática afetam desproporcionalmente os mais pobres, desde os impactos sobre populações em áreas de risco a migrações forçadas e a suba do preço de alimentos por conta de eventos climáticos extremos. Em outras palavras, a questão ambiental é inteiramente atravessada por questões sociais e políticas, porque ela é inteiramente atravessada por divisões sociais e políticas. Nós podemos querer nos iludir quanto a isto; mas o poderosíssimo lobby exercido pelas indústrias automobilística e petrolífera, do agribusiness, da especulação imobiliária e das construtoras, no Brasil e em todo mundo, sabe muito bem que este é o caso.

O uso de “nem esquerda, nem direita” é perigoso, portanto, porque um de seus sentidos – o principal – consiste em negar a existência de divisões. Se eu e meu adversário usamos a mesma frase, mas ele tem mais poder que eu para definir seu sentido, é hora de eu começar a usar outras.

***

Em 1997, um grupo de movimentos sociais, organizações e intelectuais franceses assinou um manifesto dirigido ao Partido Socialista, que então se apresentava às eleições, com o título: “Nós somos a esquerda”. Em outras palavras, o que eles afirmavam era: “se vocês querem dizer que nos representam e esperam contar com nosso voto, esta é a plataforma que vocês devem adotar”.

Não se trata de propor imitar este exemplo, que, em retrospecto, não foi bem-sucedido, mas sim de ver aí um gesto mais radical que a repetição de uma frase de sentido equívoco e que serve tão bem ou melhor àqueles que têm intenções contrárias às nossas. Mais radical porque, ao invés de situar-se nos termos do debate impostos por aqueles que queremos criticar, se situa diagonalmente a eles, expondo seu ponto cego e tornando a raiz do problema visível de uma forma que a outra frase (que pode ser entendida de muitas formas) não consegue. Trata-se, neste caso, de afiançar a continuidade da existência de divisões e choques de interesse, e de expor o limite da democracia representativa, que cada vez mais trabalha para escamoteá-las; de afirmar que são estas divisões, e não a trajetória passada deste ou daquele político ou deste ou daquele partido, que deve definir por onde passa hoje a linha que separa “esquerda” e “direita” hoje; e, finalmente, de dizer que é a partir desta redefinição que se forma, por trás da “esquerda” – instituída, representativa –, uma outra esquerda que ainda não se fez ouvir, e que se fará ouvir através de ou apesar das instituições que reivindicam este nome.

Trata-se, em suma, de não aceitar a imagem que nos oferecem do presente e do passado, mas de dedicar-se ativamente a uma nova triagem que, descobrindo virtualidades passadas e presentes que se pretendia ocultar, abre novos futuros possíveis. E, no processo, de reivindicar-se um “nós”, de criar-se um “nós”.

Qual seria o conteúdo de um tal “nós”, no Brasil e no mundo, hoje?

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The World Cup mascots, the elections, and what’s beyond them

(I wrote this text for The Guardian between the first and second rounds of the local elections in October. They ended up turning it down, because they thought the topic was already a bit old. Since I didn’t have the time to look for another outlet, I left it in the drawer until I remembered I could just stick it here so at least someone might read it.)

(Escrevi este texto para o Guardian entre o primeiro e o segundo turnos das eleições municipais em outubro. Eles acabaram não publicando, com o argumento de que a pauta já estava meio velha. Como não tive tempo de procurar outra publicação, deixei-o na gaveta até me lembrar que eu poderia pô-lo aqui para que pelo menos alguém pudesse vê-lo. Pretendo, caso tenha tempo, fazer uma nova versão em português para breve.)

The recent attacks on the 2014 World Cup mascots in Brasília and Porto Alegre, right around country-wide local elections, got the media’s reflexes going: they were deemed ‘politically motivated’, an old trope from the days in which the commentariat would invariably discern the Workers party (PT) using its ‘transmission belts’ for its own electoral profit behind every social mobilisation. As with much media discourse in today’s Brazil, the phrase rings ironically anachronistic; a less and less believable relic, wheeled out to stoke the embers of the Cold War mindset with which many, against all odds, still approach the ruling party.

The irony is obvious, given that PT ‘owns’ bringing the World Cup and the Olympics to Brazil more than anyone else, and hence has no interest in tarnishing the façade of unity surrounding the mega events. In fact, as in most protests in recent years, PT activists were in both cases thin on the ground, an absence highlighted by its past ubiquity. Further irony comes from the fact that the first incident, in which mostly young people without party affiliations were heavily repressed, took place in Porto Alegre, the Southern city whose international progressive credentials were established by four consecutive PT administrations, the World Social Forum and innovative practices such as participatory budgeting.

Yet these seeming paradoxes are rather instructive about Brazil’s present political predicament.

The Porto Alegre mayoral election was a two-horse race between two nominally leftwing candidates. The victorious incumbent is a former PT vice-mayor now in the Democratic Labour party (PDT), which participates in the coalition governing the country. His only credible competitor was a young female MP, whose Communist party has always been a faithful partner of PT; more recently, it turned heads by becoming an ardent defender of agribusiness, an alliance that paid off in Porto Alegre, where its candidate had the support of the landowning right.

For a place where elections used to matter, the difference between the two was too small to generate enthusiasm. The protest was not so much about the elections as against the processes of speculation-driven urban ‘regeneration’ and privatisation of public spaces that have crept on the city in recent years, and which both candidates, generously financed by property and construction interests, seemed set to continue. Called ‘The Public Defense of Joy’, the street party occupied a central square that saw many cultural and political manifestations in the past, but which was recently outsourced to Coca-Cola, its use by the population suffering restrictions. 

These elements – the increasing indistinction of parties, alliances and programmes; the current development model and mega events; the decreasing ties between social mobilisation and traditional leftwing parties – offer us a key with which to read the recent elections. Four conclusions can be drawn.

First, the present development model is still electorally successful. This was clear in the incumbent’s landslide victory in Rio, which undergoes an extreme makeover in the run-up to both World Cup and Olympics. So far, the positive effects on the local economy have eclipsed the price hike caused by an unsustainable property bubble and the evictions and human rights abuses that have been its underbelly; increased security in the predominantly rich south side has muffled accounts of collusion between the local government and organised crime in the poor west and north.

This model’s connection to mega events is very effective. FIFA and the IOC sell a very peculiar kind of product, a sort of state of exception package that enables shock doctrine-style ‘creative destruction’ probably impossible under normal democratic procedure. It facilitates the hefty public investment and heavy-handed policing that go into creating the conditions for private accumulation.

Second, those who oppose the model have to understand the ways in which, by improving infrastructure or creating jobs, it also responds to legitimate popular desires; it would be wrongheaded and simplistic to say that people are being duped. The basis for PT’s hegemony in the last decade is the betterment of people’s material existence; the question is how this process should continue, and who should burden what costs. It falls on critics to articulate a more inclusive, environmentally sounder, transformative alternative.  

Third, its very hegemony creates a long-term problem for PT. As its horizon of social transformation disappears, its focus becomes more restrictively quantitative, its goal becomes more modestly defined as inclusion of the poor as consumers, and the means to do so acquire the more traditional outlines of state-induced private accumulation with distribution mechanisms, what once made it unique risks disappearing.

No-one can be elected in Brazil today who does not at least pay lip-service to social inclusion and wealth distribution. This has spelt the end of much of the traditional rightwing, but also its migration towards or alliance with centre-left parties. It is increasingly likely that a future challenge to PT will come from a more palatable supporting party rather than from the opposition – which, incapable of winning under its old flag, will mutate into something else (as it did with Henrique Capriles in Venezuela). This was visible in Porto Alegre and Recife, the key Northeastern capital where a socialist candidate prevented PT from securing a fourth term. Why stay faithful to one party, or even to the left, when all parties start speaking the same language? PT still has so many negative associations that the day may come when anyone promising ‘PT without PT’ might defeat it. 

Fourth, if and when it comes, PT will have lost its organic ties to all but the most institutionalised and incorporated social movements. For a long time, all new social protagonism would find a place in the party; this is less and less the case now, and it is not clear what institutional channels it may take in the future. The only campaign that seemed to elicit real enthusiasm, engaging people without party affiliations in Rio and across the country, was that of runner-up Marcelo Freixo, of PT-splinter PSOL – a party whose growth in these elections is a sign of rising dissatisfaction in the left, but which still has a long way to go to. Yet it is not PSOL, but the motley composition of those who campaigned for Freixo and who protested in Porto Alegre, that may point the way. In both cases, one saw a first tentative convergence between the victims of the current wave of development – those targeted by evictions and ‘social hygiene’ policies – and an educated, internet-savvy youth bringing into the agenda issues like the environment, public space, urban mobility, a critique of consumerism. Those excluded from quantitative growth and those raising qualitative questions: an alliance already seen in the urban support to indigenous resistance against the Belo Monte dam. Should these two poles really connect, it could reshuffle the deck of a left in the process of becoming a hostage to its own success.  

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Dois comentários sobre “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”

Aproveito para tirar as teias de aranha deste blog tão negligenciado para dizer algumas coisas que gostaria de ter dito ontem durante o debate que se seguiu à exibição do filme “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”, na Sala Redenção, UFRGS, Porto Alegre. O evento, que teve um excelente público de umas 250 pessoas, foi organizado por Cleyton Gerhardt, do PGDR/UFRGS; o debate contou com André d’Elia, diretor do filme, e Lorena Fleury, que está concluindo uma tese de doutorado sobre o conflito de Belo Monte no PPG em Sociologia da UFRGS.

No debate, houve uma diferença de posição entre os dois: o primeiro enfatizava o que lhe parecia a falta de planejamento, a lógica imediatista e ad hoc do governo, que fazia com que projetos fossem “mal pensados”; a segunda questionava esta hipótese e chamava atenção para o quanto de antecedência  um projeto destes exige, o tempo em que Belo Monte foi gestada (desde o governo Geisel), e seu significado dentro de um projeto de desenvolvimento e de inserção brasileira no mercado internacional.

O próprio André se contradisse num determinado momento, mencionando o Plano Decenal de Expansão de Energia, que, ainda que reduzindo a participação da energia hidrelétrica na matriz nacional, prevê vários barramentos na Amazônia (o Complexo Tapajós sendo o mais notório deles), alguns dos quais em áreas que hoje são de proteção ambiental. Mas o que eu gostaria de ter dito (e não disse porque minha intervenção no debate já se estendera demais) é que existe um conceito econômico que permitiria conciliar as duas posições.

Este conceito é o de vantagem comparativa, que se refere à capacidade de um país, empresa ou indivíduo de produzir um bem ou serviço a um custo mais baixo que outro país, empresa ou indivíduo. É basicamente este o conceito que embasa a lógica do “em time que está ganhando não se mexe” quando se projeta a política de comércio exterior de um país: se nós temos uma melhor inserção no mercado com um determinado tipo de produto, vamos produzir mais do mesmo.

É aí que está o lado imediatista daquilo que é, como salientou a Lorena, um planejamento de longo prazo. O Brasil, nos últimos dez anos, num período de alta dos preços das commodities puxada por uma economia chinesa superaquecida, fez aquilo que era mais fácil: reforçar nossa vocação de fornecedor de produtos agrários e minerais e, com isso, alavancar o crescimento econômico. Se, por um lado, isto criou as condições para a expansão dos programas sociais e a melhoria real na qualidade de vida de uma boa parte da população, por outro lado está armando uma bomba que em algum momento ou terá de ser desarmada, ou acabará estourando.

A bomba, por um lado, é econômica: nossa dependência cada vez maior de produtos de baixo valor agregado, o que implica um descompasso grande entre o valor de nossa produção e aquilo que precisamos importar: alta tecnologia vale mais que soja, logo é preciso produzir muito mais soja para comprar alta tecnologia. Por outro lado, é política: atrelando a economia à mineração e ao agribusiness, concede-se um peso político cada vez maior a estes grupos e seus representantes. Isto ficou claro na série de derrotas impostas pela bancada ruralista ao governo com o Código Florestal (onde a posição do governo já estava bem aquém das demandas ambientais), e é evidente no fato que a verdadeira transformação do campo, nesta década, foi feita não pela agricultura familiar ou pela base social tradicional do PT, mas pelo agronegócio. E é, também, sócio-ambiental: é preciso avançar a fronteira agrícola e extrativa, de onde, por exemplo, os conflitos crescentes com povos indígenas. De novo, trata-se de vantagem comparativa: um dos fatores que torna o Brasil tão competitivo no mercado de commodities é sua imensa reserva de recursos naturais. Por isto, também, o país é um dos maiores interessados na criação dos marcos internacionais da dita “economia verde”, para entrar com força no mercado de “serviços ambientais”.

Estes são problemas que tendem a se agudizar à medida em que a crise na Europa e nos EUA se estende e a locomotiva chinesa desacelera (e com ela, ainda mais, a economia mundial). O modelo de governança implementado pelo PT foi bem-sucedido porque, surfando um momento internacional favorável, pôde promover uma fórmula em que (quase) todo mundo se dava bem: os ricos ficavam mais ricos e os pobres, menos pobres. Se as condições tornarem a fórmula insustentável, de que lado arrebentará a corda? Esta, em última análise, é a pergunta que a bomba nos lança, à maneira de esfinge.

Falar de imediatismo salienta aquilo que há de falho na racionalidade por trás de algo como Belo Monte — e é de uma racionalidade que se trata, mesmo que ela seja míope e oportunista e, como o filme deixa claro, tenha tudo a ver com a expansão de indústrias eletrointensivas (como a produção de alumínio já instalada na região) e a criação de uma cabeça-de-ponte para atividade mineiras na Amazônia, e nada com o aumento do consumo doméstico. Se o projeto é “mal pensado”, é por conta de todos os interesses e variáveis que desconsidera, não porque falte planejamento; pelo contrário, este existe em grande quantidade, mas é feito sempre da mesma forma e de acordo com os mesmos interesses.

Mas aqui entra o segundo comentário que eu gostaria de ter feito: é preciso saber distinguir os interesses e atores na sua condição de indivíduos, e estes mesmos atores e indivíduos na sua posição sistêmica.

Num país como o Brasil, em que as elites se renovam muito raramente, é muito fácil cair na fulanização; quando o filme mostra, por exemplo, como o grupo ligado a José Sarney controla o setor energético desde o governo militar, fica fácil concluir que o problema se resume ao comportamento de algumas pessoas. Mas é preciso perceber as dinâmicas sistêmicas que fazem com que, mesmo quando novas elites políticas surgem (o caso mais óbvio sendo, é claro, o PT), o mais fácil seja acomodar-se às coisas como elas já estão, ou mudá-las apenas de maneira a favorecer o funcionamento do sistema.

De novo, trata-se de vantagem comparativa, política (mais vale favorecer quem já está instalado) e econômica. Num momento de crise mundial, em que, no norte global, o capital encontra dificuldade de se realizar (isto é, perfazer o ciclo pelo qual dinheiro gera mercadoria que gera mais dinheiro), em que a demanda por energia cresce, e um novo mercado “verde” se descortina como uma das promessas de acumulação para os próximos anos, o Brasil é uma das bolas da vez. O capital é como o vento, que se desloca naturalmente rumo a uma zona de baixa pressão atmosférica. Falar na força da causalidade sistêmica significa que o que está acontecendo não é um mero sinal da “maldade”, “falta de ética” ou “imoralidade” de alguns indivíduos: conforme dito acima, está se fazendo simplesmente aquilo que é mais fácil, surfando as ondas como elas vêm, mesmo que isso implique criar uma série de armadilhas a médio prazo. Pode-se pensá-lo em termos dinâmicos: o sistema tem uma inércia própria que só uma força muito grande — que o PT já não tinha ou não pretendia usar quando chegou ao poder — é capaz de vencer.

O problema que a crise ambiental levanta é, justamente, que basta a inércia do sistema — isto é, basta tudo seguir como está — para as coisas piorarem vertiginosamente. Chamar atenção para isto não deve ser tomado como uma desculpa para o desalento (a conclusão de que não há nada a se fazer), mas como uma apreciação realista dos desafios que possa nos conduzir a pensar seriamente sobre aquilo que é preciso fazer para estarmos a altura deles. Chamados a uma “revolução ética”, à “transformação pessoal” e a “iniciativas individuais” são bem-vindos, mas ficam apenas no nível daquilo que Glauber Rocha chamaria de “psicologia burguesa” das motivações de atores e indivíduos. Sob pena de dizer o óbvio, para mudar um sistema, é preciso uma mudança sistêmica — e esta é necessariamente um projeto coletivo.

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The Lessons of 2011: some theses on what recent struggles have to say about organisation

(This was the first draft of the piece published by Mute in June 2012: http://www.metamute.org/editorial/articles/lessons-2011-three-theses-organisation)

It is three months late, but here are some developing notes on the year just gone by. They are lessons on organisation; but rather than try to fit new events into old theories (or vice-versa), they attempt to reflect on the actual practices that produced the many uprisings and mobilisations of the last year – in the spirit of Negri’s dictum on Lenin, that ‘organisation is spontaneity reflecting on itself’. Their main goal is to think beyond regular media representations of the movements that spread across the world in 2011, which tend at once to overvalue the role of social media (so that they appear as driven exclusively by ‘spontaneous’ one-to-one networking) and to reduce them to their visible side (the camps, the assemblies). At the same time, they also try to bypass the sometimes excessively optimistic, uncritical or insufficiently self-reflexive ways of reading our own practice that actors can have at moments like this. In other words, it tries to stay focused on what people are actually doing, rather than what they are often said to be doing.

They are written by someone who, having spent most of 2011 in Brazil, did not have the luck of having first-hand experience of any such movements; as such, they rely on texts and discussions with friends who had such experience as both participants and organisers. It is up to the reader to decide whether distance, in this case, has its advantages.[1]

These first three theses are part one of, hopefully, two; more to follow soon.

1 – It is possible to have a mass movement without mass organisations

This lesson, as quite a few others, is not entirely new; it is has been known since 1968 at least, or since the late 1990s if we are to eschew classical references and stick to more recent history. It is nonetheless worth repeating. It is also worth phrasing this way, since what sometimes gets lost in the fog of war is the fact that, instead of being a complete rewriting of history, the questions thrown up by the present can be translated into the language of older debates in ways that are often illuminating.

What matters here is not only the extent to which mass organisations (parties, unions – with the notable exception of the strikes in Egypt, and local support by unions in Sidi Bouzid, Tunisia) were seen as ‘part of the problem’, or simply not invited; but also the extent to which they were questioned as mass organisations. In the face of a large, heterogeneous, developing, living movement, their capacity to mobilise seemed limited by comparison – and the quality of their representation too stale, too ossified, too top-down, too slow, too much of a representation to matter.

To say this, of course, does not tell us anything about the staying power of the movements that appeared in 2011 – on whether a choice not to form mass organisations will not entail a progressive loss of momentum –, nor does it say anything about whether mass organisations as such are an outdated proposition. It says something about the state of existing mass organisations, and the potentials that reside in the encounter between widespread discontent and technological tools that allow for mass, multi- and equipollent communication outside the mass media. It is, thus, evidently good news: mass organisations everywhere are in crisis; it is good to know that we can at least momentarily bypass them in order to produce political effects.

It also says something about the crisis of representation, and how it will be a long time until it is solved. Some were quick to point out the ‘failure’ of movements in Tunisia, Egypt and Spain, in the sense that the forces that eventually came to power were not much better than the ones that were removed from it. This is misguided to the extent that it does not acknowledge how these movements have from the start set their sights on a much longer game than can be measured by electoral cycles. Nowhere is this clearer than in the issue of the critique of representation itself: at the moment, these movements are exercising, and perhaps can only exercise, in regard to political representation what Colectivo Situaciones have called poder destituyente, or de-instituent power. They undoubtedly also possess a constituent power whose future and direction is as yet impossible to predict. It may result in new political forms, new mechanisms of representation, new institutions or, at the very least, new organisations; it may result in all of those at once. But right now, their main function seems to be that of flushing the system – and not only can this not be done overnight, enhancing contradictions in the short term (Spain now has a rightwing government elected by 30% of the population, while polls indicate that around 70% agree with the indignados, who the new government seem to be in a collision course with) may just be an effective way of doing that in the longer run.

2 – Organisation has not disappeared; it has changed

Many have noted how the obvious similarities between 2011 the alterglobalisation moment went oddly unnoticed among the commentariat. This was most obvious when it came to discussions on organisation. One particularly interesting instance was the dispute between Laurie Penny and Alex Callinicos in The Guardian; while the former might be too young to remember this debate the first time round, it is easy to imagine the latter might have made the same case (maybe even in the same newspaper) ten years ago.

There is a double irony in the alterglobalisation moment’s invisibilisation. On the one hand, it marked the first attempt to elaborate the transformations to organisational practice brought about by the development in communication technology, the advent of the internet above all. On the other, it already manifested the same tabula rasa, new dawn attitude that some adopt today: new technological conditions had changed the way we organise forever, it was all about connected individuals now, there was no more place for the hierarchies associated with more traditional forms of organisation. (Herein lies, of course, a third irony: that, as has often been the case with the modern attitude of announcing the present as a total break with the past, it appears retrospectively as an anticipation of something that was then yet to come: for the ‘new technological conditions’ of ten years ago – mostly mailing lists, camera-less phones and Indymedia – pale in comparison to the web 2.0 and the spread of the access to the means of production of information that we see today. Conversely, the ‘total break’ of today has already been around, in some form, for ten years.)

The problem is that different things seem to get mixed up in the discussion. Kinds of activism associated with older forms of organisation (seen as traditional, top-down, hierarchical) – such as ‘factory floor’ or ‘door-to-door’ community organising; generally things that require a greater degree of organisational consistency from those doing it – are lumped with the organisational form itself. As a consequence, the argument flits from claiming that some organisational forms have lost their reason for being to some forms of activism have become superfluous. This slippage was lent further credence by the thesis concerning the tendential hegemony of immaterial labour in the contemporary composition of labour – if all labour tends to resemble more and more the networked, immaterial production of forms of life, ‘political composition’ would equally tend in the same direction.[2]

Whatever one makes of that thesis, it is important to bear in mind a distinction between ‘weak’ and ‘strong ties’, much of which was made by an article by Malcolm Gladwell that made some impact in late 2010: social media are fabulous tools when it comes to spreading information and fostering low-involvement forms of action (‘share’, ‘like’, ‘retweet’, ‘donate’); they are not, left to their own devices, as good when it comes to developing dependable relations, commitment, and what it sometimes takes to really get an action or campaign off the ground. This is intuitively evident to anyone who has noticed the usual discrepancy between the amount of people who say they will attend a Facebook event, and those who actually do: expressing an intention to attend is, in social media etiquette, equivalent to manifesting support, and signals no actual commitment.

One of that text’s strongest conclusions was that ‘Facebook activism succeeds not by motivating people to make a real sacrifice but by motivating them to do the things that people do when they are not motivated enough to make a real sacrifice’. In other words, social media are an excellent medium for weak-tie activism, but the development of strong ties requires greater organisational consistency than ‘clicktivism’. One’s number of followers on Twitter is not equivalent to the amount of people one can turn out to a demo or action; as most users will know, it is sadly not as simple as ‘tweet it and they will come’.

The fact that 2011 would seem to have contradicted Gladwell’s argument does not, I think, detract from the main point conveyed by the weak/strong tie distinction, but only highlights one possibility that he underestimated: that, under certain special conditions, the quantity of connections enabled by social media can indeed produce the quality of stronger ones  – and that this could be generally construed as a marginal effect that weak ties always possess, but which is increased by favourable circumstances.

The way the media presents things is, as usual, not helpful. Judging from much that was written in 2011, one would think that all that happened was either produced by a sole individual (the ‘leader’ of this or that movement; Stéphane Hessel’s pamphlet, Indignez-vous…) or the result of someone creating an event on Facebook and thousands of people turning up on the date. Both amount to the same thing, to the extent that it is always as if an isolated initiative taking place where there was nothing before snowballs into epic consequences.

If one stops to look at how events unfolded, it becomes clear that this was never the case. Even the one instance that seems the closest to the ‘spontaneous uprising’ narrative, Tunisia, is arguably best described as starting with strong ties: Mohamed Bouazizi’s shocking act of self-immolation first galvanised a small circle of friends and family who tried to make sure the information about his death, and the protests that followed, got out of Sidi Bouzid. From then on, the story got picked up by Al Jazeera, there was support from the local trade union branch and student groups[3] and longer-term activists and media critics of the government began to speak (and act) out.

The movement, in other words, was not simply from weak ties to strong ties, the internet to the streets, but (small-scale) strong ties to weak ties (more people hearing about what had happened) to strong ties (activist groups and individuals becoming involved on a larger scale) to a broader fringe of weak ties becoming strong ties as things gathered momentum. The geographical spread, from the countryside to Al Jazeera, social media and Youtube, then to the capital and abroad, where each relay produces not only a greater number of informed people, but also people who are active, illustrates this; and it is not too much to imagine that communication among individuals was not only taking place through media, social or otherwise, but also through meetings and nascent or pre-existing organisations of different kinds.

It is well known that activist groups in Egypt had tried for quite some time to find channels for the expression of mass opposition to the Mubarak regime; after many frustrated attempts, the events of the Jasmine Revolution – and the viral spread of information and mobilising tools enabled by social and outside corporate media – provided them with an opportunity that they seized. It is true, someone did create a Facebook event calling for the January 25th ‘Day of Anger’, coinciding with Police Day; but this someone was no random ‘concerned citizen’, but the admin of ‘We are all Khaled Said’, a Facebook page with over 400,000 members that had been in existence for half a year. The admin, the now famous Wael Ghonim, attributes the idea to his collaborator AbdelRahman Mansour and the final decision to a brainstorming session over a month earlier with Ahmed Maher of the April 6 Youth Movement, in which they agreed that ‘We are all Khaled Said’ would spearhead the call, while the latter would take care of logistics.[4] (April 6th had already mobilised for that date in the past.) And as the idea of a protest on that date caught on, it was no doubt worked out in greater detail and operationalised by several other already existing and then-sprouting organisations and affinity groups.

This serves to show as false the idea according to which the communication that made the Arab Spring (or 15M and Occupy) possible simply spread from one individual to the next via social media, as if the production of quantity could in and of itself bypass the problem of quality. In each case, what happens is always a much more complex relay between already established hubs – either ‘strong-tie’ groups or communication nodes with a large following and credibility – and a long tail of ties with decreasing intensity, in a sort of ripple effect with many epicentres. This answers the question of how there can be mass movements without mass organisations: social media amplify exponentially the effects of relatively isolated initiatives; but that they do so is not a purely miraculous phenomenon, but requires the relay through hubs and ‘strong-tie’ groups that can begin to operationally translate ‘chatter’ into action. As that happens, under propitious conditions, the spread of information also aids the development of strong ties down the long tail (once a friend or family member goes to a demo, or you see stirring images of one, you are more likely to go, and so on).

So we can speak of ‘spontaneity’ only provided that we understand the new flows of information and decision-making as also being necessarily routed by previously existing networks and organisations and more tightly-knit affinities; certainly not along the lines of an ideal, ‘spontaneous’ ‘association of individuals’ who previously existed as individuals only. This is even more explicit in those cases, such as 15M and Occupy, were there was a more overground organisation process prior to things ‘kicking off’.[5]

Finally, it is interesting to speculate on how the beginnings of both the Tunisian and Egyptian revolutions are tied to death and sacrifice – of Mohammed Bouzizi and Khaled Said, above all. There is no greater test of commitment, or of the strength of ties, than being ready to die for the cause. A fascinating account of the development of the ‘We are all Khaled Said’ page speaks of a moment, around January 7th, when ‘the page forces itself not only to look at the results of torture but to study them, as a way of coming to terms with the need to place oneself in danger deliberately’; the tone of the admin voice changes, and a poster comments: ‘I think it’s time really, a revolution? Civil strikes everywhere. People will get arrested, people might die but NO PAIN NO GAIN.’ The relation between years of police abuse and violence, and then the irrepressible resolve demonstrated by protesters in those countries – the way in which the risk of taking action being the highest was turned into the most fundamental ‘strengthener’ of ties: the disposition to die together if need be, and the solidarity that it creates – seems clear.

3 – The primary organisational form of 2011 was not the assembly

At the most evident level, the primary organisational form employed by movements in 2011 was the camp. From the extraordinary example set by Tahrir Square in Cairo, the model spread to Winsconsin, Israel, Spain (where, however, it occurred as an unplanned result of the 15 May demonstration); and then, after Occupy Wall Street (like Israel, initially devised as a camp) and the October 15 day of global action, to the rest of the world. It was the most powerful meme, which is unsurprising seeing as it provided the most stirring images and, with Egypt, the most resounding, captivating victory.[6]

Yet it is important to bear in mind the precise connection between form and goal that made Tahrir into a victorious symbol. For more than simply a meme, it was a tactic that consisted in gathering the mass movement in one place and making a very concrete, if very simple and negative, demand: people will not move until Mubarak steps down. (And even then, of course, it would not have managed to achieve its goal had the regime not realised they were losing control of several other parts of the country.)

As the camp became a meme, this connection was lost. It is remarkable that the first tweet from @acampadasol – the first Twitter account of the first ‘spontaneous’ (i.e., again going from strong ties to developing strong ties along the weaker-intensity long tail) camp in Spain, at Puerta del Sol, Madrid – stated that ‘we shall stay here until we reach an agreeement’; who ‘we’ was, and agreement with whom, were things left unstated in the microblogging website’s peculiar syntax. By the time it got to the various worldwide ‘Occupy’ that sprung after October 15, this tie was lost. The same can be said about other related memes, such as the ‘human mic’, which started out as a practical solution to a ban on amplification at Zucotti Park in New York, but then became a marker of a certain ‘Occupy’ way of doing politics, even where the original impediment that had elicited it did not exist.

This is not to say that the subsequent iterations of the camp meme were in no way tactical; they were, except the tactic was different. In the absence of such clear-cut negative demands as existed in Egypt and Winsconsin, what they were doing was not trying to enforce a collectively-shared will, but attempting to create the political space in which a collectively-shared will could be constructed and strengthened, and a social force capable of affecting change – through ‘contamination’ and/or by enforcing its shared will – could appear. In this sense, if their ‘diminishing tactical returns’ progression resembles what happened to the counter-summit cycle of the alterglobalisation movement, to criticise them without recognising the other, crucial function they exercise – like Badiou, for instance, did back in 2003 in regard to counter-summits – is to fail to see the whole picture.

The strength of camps such as the ones seen in Spain, Israel, and several Occupy lay in providing a focal point for widespread dissent. In terms of 15M’s ‘from the web to the streets’ motto, we could visualise them as a moment when social networks that already existed in the virtual (and non-virtual) worlds collided with one another, were reshuffled, and given greater consistency by direct contact and co-presence. More than that, they provided a space in principle accessible to all, regardless of any previous experience of activism or insertion into the social networks in which the spark had initiated. Finally, they did so while also exposing people to the challenge of sharing a space and its running, which, if it can be rather testing, can also be conducive to the development of stronger ties. In other words, what these later camps did was to act on the conditions of possibility of politics: in the context of a deep social malaise, a profound sense of disempowerment and of being unrepresented, and the impacts of a severe crisis on a highly atomised sociality, they functioned as a space where the fabric of relations that could be called ‘the political’, at least for those who were there, could be partially (re)constituted.

The whole difficulty was that, while they did that, both outsiders and insiders also expected from them concerted political action and clear position-taking beyond the act of camping. They had, so to speak, to grow up in public. All this in a situation whose tactical coordinates were not time-bound: it was not a matter of holding the space until something specific happened, but of holding the space until… – with no obvious idea of what that would be, and facing the very difficult, possibly impossible task of deciding it on the spot with very large numbers of very diverse people.

Much was made of the general assemblies that seemed to be the lifeblood of camp life. It is no surprise that they should catch the eye as they did, considering how at once impressive and quaint they looked (cue the de rigueur journalistic remark on hand gestures…), but also how they seemed to address the widespread experience of a democratic deficit: one of the most usual comments made by participants speaks of everyone’s ostensible gladness with being given a voice in front of others.

One should, for that reason, be slow to dismiss the importance of these spaces. And if virtual networks were the original medium for affective spread and contagion, the ‘reshuffling’ enabled by open mic spaces where you can meet people who sound to you like they are ‘talking sense’, thus starting new relationships and getting into other networks, as well as the sheer power of listening to people you would otherwise never meet who share the same feelings and stories, cannot be underestimated.

It is undeniable, however, that the very difference in intensity between moving ‘from the internet to the streets’ can produce an overvaluation of the assembly in the face of everything else. During the Arab Spring, Christian Marazzi compared the logics of contagion proper to financial markets and to the events taking place in the Mahgreb. In the former, it is the deficit of information that leads to mimetic behaviour that, in the frantic heights of a speculative bubble, becomes entirely self-referential and disconnected from any observation of dynamics outside itself – always assuming some other (ultimately the market Big Other) knows something ‘we do not know’. In the latter, he saw an excess of information as leading to an ‘imitation of oneself’ whose material referent is the very social body. In these terms, the risk that assemblies carry with them could be described as a fetish of presence – of restricting the ‘oneself’ to be imitated to the assembly itself, losing sight of non-presential affects as well as the ‘others’ of that experience, which in turn is erected into a less inclusive, less connected ‘you just had to be there’. This mistakes the immediate, visible body of the mo(ve)ment for its real body – which is mediate as well as immediate, virtual as well as actual, diffuse as well as concentrated, variable as well as given, and dependent at all times on a complex assemblage of bodies, technological interfaces, words, affects and ideas.

This dynamic can be intensified by the very tendency of the media to represent assemblies as the movements’ core. If, however, we take a step back from their more visible manifestations to see the process that both led to them and kept them alive, what becomes apparent is that their key organisational form, while in its own way also open and horizontal, was not the assembly.

We could call it distributed leadership: the possibility, even for previously ‘uncharted’ individuals and groups, to temporarily take on the role of moving things forward by virtue of coming up with courses of action that could provide temporary focal points for activity. I have previously referred to this as ‘diffuse vanguardism’: the capacity ‘to ignite large-scale effects without any sort of [previously existing or at a proportionally large scale] decision-making procedure’. It is the capacity of coming up with something that has the ‘fairy dust’ of a replicable idea that ‘makes sense’ for others – which applies, to begin with, to those examples seen above of the first outliers, groups or individuals, who started networking towards mass actions that would then develop into camps and, eventually, assemblies; but then, again, to all of those whose initiatives, by example more than persuasion, managed to cut through deadlocks in decision processes that had been progressively reduced to the assembly form.

What makes this kind of leadership different is the fact that it does not require a previous ‘leader’ or ‘vanguard’ status, be it by virtue of an already established position: membership numbers, a political trajectory, having been capable of mobilising vast numbers of people in the past… In fact, one of the key things that, in the present environment, appears to work in favour of an initiative is the fact that it is ‘anonymous’ or, as one would say in sports language, ‘unseeded’. It is only natural that, if the present crisis is to a great extent one of representative democracy, there should be some degree of suspicion towards ‘representative’ names.

At the same tie, producing an initiative that resonates and gains traction with others will often demand more than just ‘throwing an idea out there’; it entails setting an example to be followed, and thus depends on it being embodied in a group of people who ‘make it happen’. Such seems to be the case with arguably the most important development to take place after the camps – the focus on anti-eviction actions and occupations with a view to providing housing for victims of foreclosures. Again, a mediation takes place that goes via strong to weak ties, producing strong ties in the process; but successful new initiatives will often require relatively ‘low-entry levels’, which can increase in militancy with time (one example would be UK Uncut actions in Britain).

The logic of distributed leadership characteristic of 2011 struggles is that of the ‘leader of the pack’ as described by Deleuze and Guattari in Mille Plateaux; and yet, if we subtract the strong teleology from Hegel (the only way to carry on reading him today), we will find it is not too distinct from Hegel’s Werkzeuge of world history, ‘world-historical individuals’. In Catherine Malabou’s felicitous phrase, what we have here is the movement of a changing body/border precipitated by the occurrence of singular initiatives ‘as the cutting edge of excess/overcoming [comme bord de débordement]’.[7] Interestingly, it could be noticed that more optimistic readings of such movements, while ostensibly predicated on something like ‘collective intelligence’ rather than history (or World Spirit), appear to rely on a teleology according to which said intelligence, rather than responding to conjunctural problems with the resources at its disposal at any given time, is also in the long run ‘working out’ the solutions for the problems being faced today. This could be described as an extreme case of presence fetish, where assemblies and working groups figure as stand-ins for humanity as a whole.

But it would be naïve to think that such leadership, while distributed, is so in an entirely even way. Social media provide a good, if necessarily partial, visualisation of which communication hubs carry more weight than others, as seen here and here, for instance; like any decentralised, scale-free network, the networks they reveal contain a large number (‘long tail’) of smaller, less connected nodes, and a small number of hubs with connections to more, more connected and farther nodes. This puts an insurmountable spanner in the works of any simplistic, ‘levelling’ conceptualisation of horizontality as absolute equality – a possibility foreclosed by all the available knowledge, mathematical and intuitive, on the structure of this kind of networks. (And to what extent is this dream not a variation on the liberal theme of a naturally righteous free association?) This does not, however, make it ‘undemocratic’ as such either; and it would be a mistake to let an unrealisable dream of absolute horizontality serve to downplay or obscure actually existing practice.

Firstly, it must be noted that the majority among the most important Twitter accounts in these visual representations were non-existent just over a year ago; if they acquired their present relevance, it was through their being relevant at the time when these new connections and this particular kind of traffic among them boomed. The argument can no doubt be extended beyond social media. Secondly, while it is obvious that there is something self-confirming about being a hub – those who have ascended to the status of good sources will have more connections, hence automatically also be heard more – this very self-confirming nature entails their dependence on a process of constant legitimation. That is, while distributed leadership is not an ideal ‘free market’ of information, analysis and initiative, but subject to a process of preferential attachment, a hub’s ‘stock’ also fluctuates according to the quality of traffic that it routes and initiatives that it proposes. That something is proposed or relayed by a ‘strong’ source does not necessarily make it ‘catch on’; for every successful initiative, there are a thousand that do not ‘take off’. At the same time, one of the things that makes a strong source is the fact that it can draw attention to smaller, less connected nodes, and thus (potentially, at least) contribute to increasing their visibility and connectivity. Finally, the more connected and excitable the ‘machine-body’ of a networked movement – that is, at peak moments in the mobilisation of bodies, affects and virtual connections – the easier it is for traffic from less connected nodes to be picked up (also, conceivably, the quicker and easier the movement from weak to strong ties that an initiative requires to be made effective).

In this sense, then, if we can speak of something resembling a vanguard, it would be in the sense of something like an immanent vanguard: its status is dependent on a capacity to ‘lead’ that has to be proven each time; it is a cause that inheres in its effects. It only exists as a vanguard to the extent that it ‘works’ – and when it does not, it does not, maybe even in ways that damage its standing in the future. Now, it could be said that this was the only sense in which vanguards actually existed historically; but to make this point is tantamount to suggesting that there is no objective ballast to vanguard status – the identification of one having long been the chimera of different strains of Marxism – beyond the effectiveness of its (temporary, localisable, though potentially much wider than its initial context) ‘leadership’.[8]


[1] While they have been brewing for some time, one recent fact that played an important part in bringing them together were a series of conversations with my friend Javier Toret, twitterer for Democracia Real Ya; some of these were recorded in the form of an interview that can be watched (in Spanish) here.

[2] Elsewhere I have tried to explore the different possible meaning of both ‘tendency’ and ‘hegemony’ in this formulation, with some sceptical results.

[3] ‘The major driving force behind these protesters is the Sidi Bouzid [Tunisian General Labour Union branch]’, claimed a local; an ‘aggressive Internet campaign called on fellow citizens and unions to set up committees to support the uprising in Sidi Bouzid. Lawyers and student unions were among the first to take to the streets in an organized way’, according to a Project on Information Technology and Political Islam report.

[4] Ghonim, W. (2012) Revolution 2.0. A memoir, London, Fourth Estate, p. 225. David Wolman’s The instigators, relatively unique in according a greater importance to previously existing organisations (A6YM in particular), quotes Maher as telling Ghonim that ‘[w]ithout coordination, (…) people brave enough to head into the streets often have to return home just as fast, having achieved nothing “because one dumb officer shooed them away like flies”’; an extract can be found here.

[5] A step-by-step explanation of the former’s process, which went from February to May, can be found here. This article on the lead-up to Occupy Wall Street highlights the role played by ‘New Yorkers Against Budget Cuts’, a group of ‘student activists and community leaders from some of the city’s poorer neighborhoods’ in making the idea first floated by AdBusters operational.

[6] Curiously, Daphni Leef, the person credited with starting the camp in Tel Aviv, is quoted as having the 1920s US Hoovervilles as a reference. Even more curiously, it has been argued that the Israeli protests were to some extent ‘astroturfed’; cf. the correspondent Wikipedia page.

[7] Malabou, C. (1996) Who’s afraid of Deleuzian wolves?, in: Patton, P. (ed.) Deleuze: a critical reader, London, Wiley-Blackwell, p. 221. As people like Malabou and Juliette Simont have pointed out, the distance between Deleuze (and Guattari) and Hegel is often much smaller than the former would like to see transpire. Cf. Simont, J. Essai sur la quantité, la qualité, la relation chez Kant, Hegel, Deleuze. Les “fleurs noirs” de la logique philosophique. Paris: L’Harmattan.

[8] Again with Malabou (Op. cit., p. 128): ‘The phenomenon of a pack’s border is not its most representative element or its most highly developed specimen’; ‘the anomalous carries only affects’, because the multiplicity is defined by compositions of affects rather than its elements or characters, and thus ‘cannot (…) be the object of a taxonomy.’ (This ‘exceptionalism of the exception’ is, of course, something that she will take issue with.)

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The struggle for Pinheirinho will remain an inspiration

(Unedited version of the article published by The Guardian here.)

The image spread around the world fast: the residents of the Pinheirinho favela, in São José dos Campos, state of São Paulo, donning helmets and shields and building barricades to await the enforcement of an eviction order. It undoubtedly played a large role in garnering interest in a case that is not, after all, too exceptional an occurrence in Brazil. Pinheirinho has been squatted for eight years, and no government effort (at the local, state or federal level) was ever made to regularise the area or develop an adequate infrastructure; home to some 1,600 families, roughly 6,000 people, the land belongs to a notorious financial market fraudster, finally arrested in 2008. Spurred by the property development boom that the country is currently going through, the local administration has recently taken an active stance in pursuing the eviction, aided and abetted by judges who seemed to wish to make that happen as quick as possible, despite the obvious dangers and the way in which that would expose an already vulnerable population.

The outcome, though gruesome, is sadly not too exceptional either. After that first image helped make a national issue out of the case, the federal government manifested the intention to intervene by buying up the land and developing it for the squatters. On those grounds, a federal judge stopped the eviction until further notice, only to be quickly overruled by another on, who declared it a state matter; the state judiciary then acted fast, planning the operation with the police before the favelados’ lawyers could react.

The story of what followed is still developing, but for the whole of Sunday, 22/01, social networks were buzzing with war-like scenes and tales of brutality, including a media ban and mobile phone block in the area, and the detention of a federal representative and a senator who attempted to intervene (they later clarified they were not detained, but trying to negotiate). As many as seven deaths, including a small baby’s, have been reported; hospitals in the region are yet to issue a statement on the matter.

It was mostly on Twitter and Facebook, in fact, that one could find information about what was going on. Throughout the day, the corporate media – with historical ties to the party in power at both state and local level, PSDB – reported the story in muted tones and with questionable choices of emphasis: there were headlines about a TV van set on fire, even while pictures emerging from the area showed many people’s houses in flames. Twitter in particular enabled access to individuals reporting on the spot, and #Pinheirinho registered as top trending topic for a couple of hours. (It was then taken off the list by Twitter, only to be brought back on in the face of an immediate reaction from users.)

This is revealing of a crucial phenomenon of the last yen years: whereas in places like Iran and Egypt social media has functioned as a tool against state control of information, in Brazil it has served to bypass a monolithic private media sector, which is under-regulated and highly concentrated – 90% is in the hands of fifteen families, many of which partners. As other means of producing and circulating information became more readily available and a so-called ‘progressive blogosphere’ developed, corporate media, which gave space for the most aggressive opposition to the Lula and Rousseff administrations, began to be more widely perceived as biased and moved by its own economic interests, losing credibility. Interestingly, there are studies that point to the fact that the role of opinion maker in families now tends to be played more by young people, precisely those with greater access to the internet.

The alternative blogs and outlets that sprouted in the last decade were vociferous in their condemnation of the São Paulo state government last Sunday, and rightly so. But one could not help but ask whether some of them could not also be accused of double standards of late.

To be clear, Pinheirinho stands out for the police’s ferociousness and the staggering callousness and authoritarianism demonstrated by the state judiciary and, above all, governor Geraldo Alckmin: it has since transpired that there was a deal according to which the federal administration would come up with a clear proposal concerning the situation in fifteen days if the state government did not pursue the eviction. That deal was reneged on – those who struck it on the federal side only heard about the police action when it was already on course –, and Alckmin continued a sad tradition of violence and intransigence against the poor and social movements. (A recent operation to clear an area where crack users congregated in central São Paulo was heavily criticised; and the city, of course, is also where the Carandiru massacre, in which police killed 111 prisoners in 1992, took place.) Besides, the haste with which the state judges acted suggests either ideological motivation or, more likely, very strong and precise financial interests behind the issue; it also transpires that the judge who followed the operation on site is the brother of another PSDB politician.

Yet the larger picture behind the story is that of the boom of Brazil’s economy today, in which construction and property play a growing role. It was accelerated by the choice of the country as seat of the 2014 World Cup and 2016 Olympics; and in many instances it is now PT itself that is in the role of enforcer. A dossier produced by the National Coordination of World Cup Committees estimates that some 170 thousand people around the country will be evicted owing to the sporting event (official numbers have never been announced). This ultimately means state-enforced states of exception that hand public areas, or those occupied by the poor, over to private developers, while residents are removed to farther places with deficient infrastructure, and taxpayers bankroll the whole process. Perhaps the worst case so far has been Rio, where PT, in an alliance with a centre-right party, is in charge of the local authority’s housing department; evictions there have been as authoritarian and unilateral as that of Pinheirinho, if not as spectacularly militarised. By comparison, voices on the left have been much slower in denouncing this.

Beyond the World Cup, however, this can be described as the political impasse of the gargantuan developmentalism that characterises the government of Dilma Rousseff: an emphasis on economic growth and quantitative indicators in detriment of old PT rallying points (participation, environment, wealth redistribution); and a gigantism that reinforces the logic of privatisation of profits and socialisation of costs – bringing the government, even as it mobilises old anti-imperialist tropes, closer to big mining, agribusiness and construction interests, and farther from old allies like the MST.

While attacking PSDB’s lack of social sensitivity comes naturally, many on the left have found it hard to articulate a critique of the same processes when they are not carried out by the right. There are stirrings that suggest this may be changing, such as recent protests and campaigns against Petrobrás (state oil company) and Vale do Rio Doce (mining), the building of the Belo Monte hydroelectric plant, as well as about the World Cup. They are small signs, so far still somewhat isolated, but might be the start of something. If so, Pinheirinho and the image that first drew attention to it, as shown by a series of demonstrations across the country in the last 72 hours, will no doubt prove itself to be a lesson, an indictment and an inspiration.

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O outro lado do “estamos todos juntos nessa”

Em 2005, fui dos poucos brasileiros, fora a família, a comparecer a uma manifestação e missa em memória de Jean Charles de Menezes, em Londres. Ainda era permitido reunir-se em frente ao Parlamento – hoje não é mais– e, depois de rápida vigília, pusemo-nos a andar na direção da Catedral de Westminster, em Victoria. Quando nosso pequeno grupo estava a caminho, uma senhora bem-vestida, que vinha na direção oposta, gritou: “Mas o que vocês querem? No Brasil, a polícia mata rapazes como ele todos os dias!”

A situação surpreendeu-me, também pelo que havia de improvável numa senhora como aquela pondo-se a gritar; sinal do quanto Londres se tornara uma cidade tensa nas semanas que se seguiram aos atentados de julho de 2005. Eu podia, até certo ponto, entender como ela se sentia – um dos aspectos mais insidiosos da política do medo é que, mesmo quando você está racionalmente consciente de como o medo comanda suas reações, ainda assim não consegue racionalizar o modo como se sente. Mas, evidentemente, a frase soou especialmente dolorosa para mim, tanto por parecer indicar o menor valor relativo da vida de um brasileiro (comparada à ameaça sentida contra as vidas de britânicos), como também porque era, em sentido estrito, verdade: qualquer pessoa, no Reino Unido, que seja minimamente informada a respeito do Brasil, já ouviu falar de nossa altíssima desigualdade social, e de como esta se traduz em uma prática policial brutal e altamente desigual.

É óbvio porque esse incidente voltou-me à memória logo que soube dos tumultos em Tottenham no fim de semana passado, dada a fagulha que acendou essa fogueira específica: a polícia ter matado um homem, quase da mesma idade que Menezes, em circunstâncias que  – sobretudo depois de casos recentes, como o de Ian Tomlinson ou Smiley Culture – inevitavelmente parecem suspeitas. Acrescente-se a isso a atual baixa histórica da confiança nas instituições públicas na Inglaterra, sobretudo depois do escândalo dos celulares grampeados por jornalistas, que expôs o modo como uma panelinha determinou décadas de agenda política; que a morte ocorreu numa área com um histórico de abuso policial passado e presente; que os padrões de vida estão em deterioração e que as perspectivas de futuro são cada vez mais sombrias; e que paira sobre todos a sensação de terem caído num “conto do vigário”, quando os impactos da crise parecem tão desproporcionalmente distribuídos, e “estar todos juntos nessa” parece significar coisas muito diferentes para os ricos e para os pobres. Com toda a sabedoria que nos é dada pelas coisas que já aconteceram, seria tentador dizer hoje que algo do tipo não tardaria em passar.

Em 1625, Francis Bacon publicou uma análise dos levantes (“sedições”), na qual distinguia entre causas materiais – o material inflamável – e causas ocasionais – os eventos contingentes que agem como fagulha. Há dois tipos de causas materiais: um grau de privação que se torna insuportável; e o descontentamento, que pode existir mesmo sem privação. Causa ocasional pode ser qualquer uma de várias fagulhas potenciais que, caindo sobre a matéria combustível existente, leve os indivíduos a “unir-se na injúria”. Se um governo deseja evitar levantes, conclui Bacon, não faz sentido concentrar-se nas causas ocasionais, que são relativamente imprevisíveis. É aos sentimentos de privação, de desempoderamento, de descontentamento que deve dar atenção; pois é só quando esses estão presentes que alguma coisa pode operar como o catalisador que une elementos que, até então, permaneciam relativamente dissociados, levando os que deles padecem ao ponto onde decidem agir – para mostrar, coletivamente, que “agora chega”.

Mas nem a existência de sofrimentos e injúrias, nem a ocorrência de uma “última gota” bastam para fazer agir um indivíduo ou uma multidão. Quando alguém escolhe correr o risco de cruzar uma fronteira em busca de vida melhor, quando alguém joga um tijolo contra uma vidraça, ou quando uma multidão decide enfrentar uma barreira policial, sempre há alguma coisa que não pode ser reduzida a quaisquer das causas, materiais ou ocasionais, pré-existentes. Enquanto as causas materiais podem ir-se acumulando ao longo de muito tempo, essa ‘alguma coisa’ é apenas um instante, o menor dos suplementos, mas sem ela nada acontece. Ao longo dos séculos, muita gente observou que o surpreendente não era que os levantes acontecessem, mas que não acontecessem com mais frquência. Com certeza, as razões pelas quais o Ancien Régime na França, Ben Ali na Tunísia ou Mubark no Egito foram derrubados não brotaram da noite para o dia; assim sendo, por que as pessoas demoraram tanto a agir – e por que, então, agiram quando agiram? É esse pequeno excesso subjetivo, que se sobrepõe às causas objetivas, que é sempre impossível de localizar.

À medida que a imagem do que aconteceu na Inglaterra nos últimos dias vai-se tornando mais clara, talvez possa-se usar esse excesso subjetivo como critério para fazer distinções entre o aconteceu aqui ou acolá. Uma coisa é ser motivado pela urgência de manifestar, por quaisquer meios necessários (e muitas vezes pelos únicos meios pelos quais se fazer ouvir), anos e anos de raiva, frustrações, humilhações acumuladas. Outra coisa é, de repente, perder o medo, porque se descobre que, se o grupo for suficientemente grande, você finalmente vai poder se vingar da polícia, pelo menos uma vez. É outra coisa, ainda, calcular que uma força policial assoberbada e uma vitrine de loja quebrada são boa oportunidade para adquirir algumas coisas de graça. Independente de o quanto essas linhas possam ser ou venham a ser demarcadas, há três lições claras a aprender.

A primeira é que é um absurdo completo dizer que os tumultos de Londres nada tem a ver com política. Sem dúvida, muitos dos que participaram deles talvez não estivessem “pensando em política” enquanto agiam; e foi particularmente triste ver moradores dos bairros que tiveram suas vidas ameaçadas, suas casas e negócios destruídos, quando eles pertencem às mesmas comunidades e padecem dos mesmos males sociais que afligem os manifestantes. Mas não se pode confundir motivação subjetiva com causas materiais e ocasionais– as quais, como Bacon sabia, são de natureza eminentemente política. Não se trata de simples anomalia estatística que jamais alguém tenha visto banqueiros saqueando uma loja; tampouco sua refinada educação ou gosto sofisticado podem explicar isso. É óbvio que o fato de os saqueadores sempre serem os mais pobres diz algo sobre a distribuição da riqueza e das oportunidades numa sociedade. E no atual clima na Inglaterra, depois dos “resgates” aos bancos e do escândalo Murdoch/News of the World,  talvez também demonstre que mais e mais pessoas começam a suspeitar que os banqueiros têm, de fato, acesso a meios mais eficientes, sancionados pelo estado, de saquear os outros. Isso quer dizer que fazer do plano de “austeridade” da coalizão Conservadores/LibDem a causa material e ocasional do que se viu em Londres é contar apenas metade da história. É preciso olhar para atrás, para décadas de exploração e desempoderamento, inclusive para o sentimento de que não faz diferença qual partido esteja no poder, será sempre apenas uma uma pequena fração da sociedade que terá seus interesses politicamente representados.

A segunda lição é a seguinte: os tumultos são o outro lado da moeda do “nós estamos juntos nessa”. Não só porque, como se viu na Grécia e na Espanha, há um limite para o que se pode esperar que as pessoas aceitem antes que elas decidam que “agora chega”. Mas, também, porque uma sociedade que vê crescer a desigualdade e nada faz a respeito é uma sociedade na qual, fatalmente, coisas assim ocorrerão.

Há um “contrato social” perverso que se vê em cidades como Rio de Janeiro, Joanesburgo ou Cidade do México – onde uma pequena elite troca seu acesso desproporcional a riqueza, oportunidades e representação política, pela vida em condomínios, o gasto de fortunas em segurança e o medo. A mais clara ilustração disso talvez venha daqueles pontos nas favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro que se tornaram áreas militarizadas nas quais o estado brasileiro não entra. Olhando do alto as áreas mais ricas da cidade, das quais estão muito perto, elas parecem dizer: “podemos não ter bem-estar, podemos não ter voz na política, mas estamos aqui. Olhem por cima do ombro e vocês verão: estamos juntos nessa”.

Claro, os problemas sociais na Europa estão longe desse nível. Mas o importante aqui é ressaltar que aceitar a desigualdade é um pacto mefistofélico: entra-se numa espiral em que se troca o acesso ao consumo e ao privilégio (mesmo que seja o duvidoso privilégio de poder pagar por serviços de segurança) por direitos: o direito de andar livremente sem medo, o direito de usufruir de bons serviços públicos etc. Você pode ter um carro do ano, mas se seu carro for roubado ou quebrar, porque a cidade foi inundada, o transporte público será ruim ou perigoso demais para que você possa usá-lo. Você pode ter sapatos ridiculamente caros, mas alguém, um dia, pode decidir tirá-los de você. Saques e criminalidade são, na verdade, o outro lado daquela espiral; aquilo que a compensa, como uma espécie de mecanismo “não-oficial” (ainda que ineficaz) de redistribuição de riqueza. Acabem com a infraestrutura e com os serviços comuns, substituam-nos por consumo, e os que não podem consumir, mas são diariamente chamados a fazê-lo, consumirão “por outros meios”.

Não resolvam essas questões, e elas criarão raízes. Veja-se, por exemplo, o controle territorial que hoje têm os cartéis de droga em várias regiões do México; ou como o Primeiro Comando da Capital conseguiu paralisar São Paulo duas vezes (nem tão diferente do que se viu em Londres nos últimos dias). E nenhuma força policial, por mais de ferro que seja sua mão, consegue interromper essa dinâmica. Os lugares onde a disparidade social é maior tendem a ser aqueles em que as polícias são, mais claramente, um instrumento brutal de proteção dos ricos contra os pobres, e, ainda assim, estão entre os mais violentos do mundo. O fato de serem um inferno para os pobres não faz deles um paraíso para os ricos.  Talvez os super-ricos – os que, nessas cidades, sobrevoam as ruas em seus helicópteros – nada vejam. Todos os demais entram, com mais ou com menos, na “vaquinha” para pagar o preço desse pacto.

No final das contas, então, os “baderneiros” da Inglaterra não precisam estar “pensando em política” para que a mensagem que enviam seja política. Pois a última lição a ser tirada aqui nada tem de diferente daquela de protestos “explicitamente” políticos, na Grécia, Espanha ou Israel: o fosso que separa ricos e pobres aumenta dia a dia, e a grande maioria se sente cada vez mais passada para trás. Se não se quer deixar que as coisas fiquem ainda mais feias, a hora para mudar de rumo é agora.

Quando a Espanha conquistou a Copa do Mundo de futebol, Barcelona, uma publicação argentina sarcasticamente batizada em homenagem ao destino preferido dos migrantes daquele país, celebrou a conquista com uma capa gozadora: “Crise, desemprego, miséria, fim do estado de bem-estar, rendição ao FMI e sucesso nos esportes: as nações mais pobres do mundo saúdam os espanhóis – Bem-vindos ao Terceiro Mundo!”. Além de ser uma ótima piada, a manchete faz uma observação pertinente: por que aquilo que é cristalino para as pessoas do Norte global, quando elas estão falando do Sul, parece tão difícil de entender quando acontece “na sua casa”? Pergunte a qualquer cidadão britânico medianamente informado sobre a violência no Brasil, e é provável que ele responda algo sobre a distribuição desigual da riqueza, a falta de oportunidades, ou mesmo sobre como o tráfico chega a locais onde o estado nunca entrou, como alguns adolescentes veem uma arma como instrumento para que sintam-se valorizados e respeitados,como a polícia piora tudo, porque é vista como corrupta e preconceituosa, e de como o sistema político basicamente reproduz essa situação. E no entanto, agora mesmo, posso imaginar aquela senhora que vi em Victoria. “Por que eu deveria escutar o que você diz?”, ela pergunta. “O seu país tem problemas sociais muito maiores que o meu.”

Tem razão, minha senhora. É exatamente por isso.

tradução: Vila Vudu

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