Na história, a esperança sempre vence o medo

Recentemente, Fernanda Torres fez um alerta aos manifestantes no Rio de Janeiro: as lutas sociais podem levar a situações ainda piores do que aquelas contra as quais se luta. Em tempos de ânimos acirrados e lados escolhidos, muitos inevitavelmente tomaram o aviso como uma defesa do governador Sérgio Cabral, e o compararam ao “eu tenho medo” de Regina Duarte na campanha presidencial de 2002.  Para quem for criticá-lo, contudo, convém lembrar que o alerta se baseia não num simples apelo emocional (“tenho medo”), mas num argumento que tem sido usado com alguma frequência por parte da esquerda para desqualificar os movimentos recentes no Brasil e no mundo. Neste, prova-se que o Egito “acabou mal” porque resultou em Morsi e nos militares, a Espanha “acabou mal” porque o PP derrotou o PSOE, o Brasil “terá acabado mal” se Dilma perder em 2014, como o Rio “terá acabado mal” se Garotinho se eleger.

Estas lições sobre “como se faz uma revolução” claramente expõem quem as distribui como alguém que as aprendeu em livros de história, onde revoluções e outros processos políticos aparecem concluídos, com resultados estabilizados e conhecidos, e não na prática, onde as coisas necessariamente aparecem em processo, no presente. Olhar, como se fez na época, para a vitória da direita nas eleições espanholas ocorridas como o “fracasso” d@s indignad@s, é como estar na Rússia entre março e outubro de 1917 e falar do “fracasso” da revolução (“só se conseguiu um governo provisório burguês!”), na China em 1946 e falar do “fracasso” dos comunistas chineses (“só conseguiram fortalecer Chiang Kai Shek!”), ou apontar para o massacre de Jallianwala Bagh na Índia como prova do “fracasso” de Gandhi (“ele só conseguiu que matassem centenas de indianos!”).

(Que fique bem claro, os exemplos não importam nenhum juízo de valor sobre os processos em questão. Comparações futebolísticas são igualmente boas; pense-se em quem, ao ver o 1×0 marcado pela Suécia em 58, triunfalmente concluísse: “O Brasil nunca vai ganhar uma Copa!”)

Mas há alguma coisa de especialmente perverso em usar este argumento para desqualificar movimentos que tem a crise da democracia representativa, se não como seu objeto imediato, pelo menos como um de seus problemas centrais. Tomemos o exemplo espanhol. O 15M aparece em maio de 2011 dizendo que os dois principais partidos (PP e PSOE, o segundo dos quais então no poder) representam apenas os mesmos interesses financeiros e corporativos; o problema é a corrupção do sistema representativo, que ocorre sob os panos mas também legalmente, à luz do dia; é preciso mudar o sistema e suas condições, os mecanismos de representação e não os representantes. Seis meses depois, o PP derrota o PSOE.  Ora: se alguém diz que é preciso mudar o jogo, e não trocar as peças de lugar, não se pode apontar para uma mera troca de peças (o PP no lugar do PSOE, ou Garotinho no lugar de Cabral) como prova de seu equívoco. Se o objetivo é mudar o jogo, e apenas se trocou as peças, só o que isto demonstra é que o objetivo não foi alcançado, e não que estivesse errado.

A questão é: trocar as peças e mudar o jogo – mudanças intrassistêmicas e uma mudança de sistema – têm tempos diferentes. É óbvio que a segunda tenda a levar mais tempo que a primeira. De fato, aquilo com que muitos se ressentem em relação aos partidos é o fato de submeter a segunda ao tempo da primeira, de forma que a promessa de grandes transformações fica vinculada à vitória nas próximas eleições, e a vitória nas próximas eleições com frequência se vincula a concessões que adiam as grandes transformações para um futuro cada vez mais distante.

Evidentemente, comparar o que se passa no Egito, na Espanha ou no Brasil com processos “vitoriosos” no passado não assegura nenhuma vitória no futuro. Se o argumento que se critica aqui é falacioso, ele não deixa de conter um grão de verdade: processos históricos, vistos não do conforto de um espelho retrovisor, mas em meio à confusão do presente, são espaços em que ora se chocam e ora se combinam forças vindas de diferentes direções, interesses diversos e às vezes antagônicos, explícitos ou camuflados. Um jogo só se diz perdido ou ganho quando se pode dizer que acabou; enquanto estiver sendo jogado, estará sendo perdido e ganho a todo momento, e qualquer posição conquistada estará sempre sob risco.

É bom ter clareza desde já: nos tempos curtos, das trocas de peças e movimentos táticos, é provável que muitos resultados impalatáveis ainda estejam por vir. Mas parecemos atravessar um daqueles raros momentos, em escala tanto nacional quanto global, em que as possibilidades estão abertas para se apostar nos tempos mais longos, de mudanças mais profundas. Isto não significa que riscos não existam, nem que recuar não possa às vezes ser necessário; mas certamente significa que o medo de perdas no curto prazo não deve ser motivo para não jogar.

A falácia do argumento consiste justamente em aplicar para um processo em andamento um raciocínio que só é possível retrospectivamente. Se um evento anterior A (positivo) contribuiu para a existência de um evento posterior B (negativo), sempre se pode argumentar, depois que B tenha ocorrido, que teria sido melhor que A, por mais positivo que tenha sido na época, não ocorresse. A lógica vale igualmente para movimentos sociais e governos (sem Jango, não teria havido o golpe de 64; não fosse Allende, Pinochet não teria acontecido da mesma forma) e, inclusive, para eventos positivos que se seguem a negativos (sem brutalidade policial, o movimento não teria crescido; se Amarildo não desaparecesse, não haveria tanta pressão sobre Cabral). Além disso, um evento posterior C pode sempre reverter o juízo de valor feito: na medida em que o massacre de Jallianwala Bagh contribui para o fim do controle britânico sobre a Índia, o retorno de Gandhi deixa de ser negativo (por ter levado ao massacre), e mesmo o massacre passa a ter um sentido positivo. Esta lógica, em resumo, serve para provar qualquer coisa.

Durante muito tempo havia uma “ciência” de produzir juízos de valor sobre fatos históricos: era o materialismo histórico na sua versão mais paródica, codificada pelo estalinismo. Com ele, era possível dizer que A ou B eram positivos ou negativos em termos absolutos, porque pressupunha-se que (a) existia um ponto final da história, o comunismo, e (b) era para ele que a história caminhava inexoravelmente, de modo que (c) tudo que contribuísse para levá-la a seu termo natural, por mais horrendo que fosse, seria positivo. Se a lógica por trás do argumento serve para provar qualquer coisa, isto é porque, na ausência da crença em um ponto final para o qual a história caminha, qualquer escolha de um ponto final (um momento no qual pode-se dizer que um processo acabou, ou que resultou em B ou C) é arbitrária. A história como um todo é um jogo que está sendo jogado todo o tempo, e julgar seu sentido é sempre uma avaliação parcial, cuja condição é impor-lhe arbitrariamente um ponto a partir do qual se pode julgar. Avaliar é, assim, sempre já tomar parte no jogo, tomar partido numa luta.

É por isso que o socialista utópico inglês William Morris escrevia que as pessoas “lutam e perdem a batalha, e aquilo pelo que lutavam acontece apesar de sua derrota, e se revela não ser aquilo pelo que lutaram, e outros tem que lutar por aquilo pelo que elas lutaram sob outro nome”; e que Gilles Deleuze debochava dos “novos filósofos” franceses dizendo que é preciso ser muito estúpido para não saber que as revoluções “sempre acabam mal”. É fato que elas sempre acabam mal, no sentido descrito por Morris: se a história não acaba, é porque ela nunca chega à perfeição, e alguém sempre terá motivos para seguir lutando. Nenhuma revolução, nenhum processo político, jamais será mais que parcial, temporário, criando as condições, piores ou melhores, para que se comece tudo de novo. Mas da mesma forma que as pessoas não deixam de se apaixonar porque sabem que o amor um dia acaba, a necessária derrota de toda revolução – e a necessária derrota de toda reação, já que a história oferece provas contundentes de ambas – jamais impediu aquilo que Deleuze chamou de “devir revolucionário” das pessoas. Neste sentido, pode-se dizer que, na história, a esperança sempre vence o medo.

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