Três motivos para não dizer “nem esquerda, nem direita”

É comum que se responda à frase “nem esquerda, nem direita” com o adágio: “mostre-me alguém que não acredita em esquerda e direita, e eu lhe mostrarei alguém de direita”. Mas este não é sempre o caso, pelo menos no que toca às intenções. Se é verdade que é de má fé o uso mais comum que da frase se faz, há muita gente, talvez cada vez mais, que a usa sinceramente. Aos cínicos, não há nada a dizer; eles sabem (e nós sabemos) de que lado estão. Este texto se dirige, portanto, a quem diz a frase de boa fé, na tentativa de convencê-los de que se trata de um engano tático. Falar em “tática”, aqui, é deixar duas coisas nas entrelinhas: que há motivos legítimos pelos quais alguns se sentem tentados a falar desta forma, e que as intenções com que o fazem são intenções das quais, em geral, compartilho. Dizer tratar-se de uma questão tática significa, portanto, fazer a pergunta: o uso desta frase é mais benéfico ou, pelo contrário, mais prejudicial a tais intenções? É aqui que se impõe a discussão.

1 – A frase é equívoca.

Seu sentido varia conforme o contexto e, principalmente, quem a usa. Ela significava uma coisa quando era usada, principalmente a partir dos anos 70 e 80, para se referir a lutas e sujeitos políticos que não eram reconhecidos por um lado nem por outro, ou cujas pautas eram, de alguma maneira, resistidas e/ou escamoteadas por ambos: mulheres, negros, índios, gays e lésbicas… Neste caso, queria dizer: “nenhum dos lados nos reconhece e luta por nós, por isso fazemos nossa própria luta”.

No surgimento do movimento ambiental, nos anos 70 e 80, ela tinha este significado e mais um, suplementar: o meio-ambiente, questão que demorou para ser incorporada à agenda tanto da esquerda quanto da direita (e que, na maioria dos casos, o foi no nível do discurso muito mais que na prática), nos diz respeito enquanto seres vivos e habitantes deste planeta, independentemente de preferência política. Logo, seria uma questão “nem de esquerda, nem de direita”, mas de todos.

Ela tinha outro sentido quando começou a ser usada por atores oriundos da esquerda histórica a partir dos anos 90. Neste caso, justificava a capitulação diante da realidade, agora aceita como absoluta e imutável, da economia de mercado e dos limites atuais da democracia representativa. Foi neste sentido – de “direita e esquerda (históricas) não existem” – que ela foi a consigna da dita Terceira Via, isto é, a adesão, por parte de forças políticas cuja origem remonta às lutas operárias dos séculos 19 e 20, ao neoliberalismo. “Não há mais esquerda e direita”, no sentido de projetos que de alguma forma fundamental se opõe; “há apenas nuances”. O tempo fez estas nuances cada vez mais imperceptíveis, uma fratura na democracia representativa que foi exposta de forma cristalina pela crise financeira iniciada em 2008 – em que partidos “de esquerda” como Labour (Inglaterra), PSOE (Espanha) e Pasok (Grécia) estão tão implicados quanto seus equivalentes “de direita”. É este o sentido do grito de “não nos representam” que se ouve das multidões na Europa e nos EUA: a democracia representativa, nos países onde supostamente tinha atingido sua forma mais acabada, transformou-se num sistema em que todas as opções são essencialmente a mesma, e todos os partidos respondem essencialmente a um cartel de interesses corporativos financeiros, energéticos e midiáticos.

Era também com este sentido de ruptura histórica – “ não existe” – que, no mesmo período, ela passou a ser usada por atores provindos da direita histórica. Com o fim do bloco soviético, já não existe mais projetos alternativos, “não há alternativa” (como disse Thatcher) ou “o único sabor no mercado agora é baunilha” (parafraseando Stiglitz); quem não aceita isto, é um dinossauro cujo tempo passou. O triunfalismo da direita de sempre e o oportunismo da “nova” esquerda partidária convergiam nisto: “fora nós, não há nada, e quem não vê isto, está ultrapassado”. Mas convém notar que, conforme a crise atual tem deixado claro, isto se deu não por uma convergência das agendas políticas, mas porque a “nova” esquerda (isto é, a esquerda histórica que se “renovou”) incorporou a agenda da direita, acrescentando-lhe “nuances” que o tempo desbotou por inteiro.

Em virtude desta equivocidade, é uma frase com que convém se cuidar: não só o que se quer dizer com ela pode soar de maneira muito distinta a outros ouvidos, como aquilo que soa a nossos ouvidos pode ser muito distinto da intenção, de boa ou má fé, que outros têm ao usá-la.

2 – A frase abre mão de redefinir o passado.

É no sentido de uma virada ou corte histórico, de novidade, que normalmente se emprega a frase hoje: a partir de um determinado momento, a divisão entre “esquerda” e “direita” teria perdido o sentido. A primeira coisa a fazer é observar que, enquanto o momento histórico apontado como aquele da ruptura varia e sempre encontra um novo “agora”, a frase em si já é usada assim há pelo menos 15 anos. A segunda é perguntar se o desaparecimento desta distinção política implica o desaparecimento das divisões sociais: ainda se pode falar de “pobres” e “ricos”, os que “têm acesso” e os que “não têm acesso”, os que “têm oportunidades” e os que “não têm oportunidades”? Foi nestas divisões, afinal, que a distinção entre esquerda e direita se originou. Introduzir uma distinção em termos de “mais” e “menos” – “mais ou menos” acesso, “mais ou menos” oportunidade – não parece suficiente para eliminar as divisões. No limite, sempre restam aqueles que têm “muito pouco” e os que têm “demais”; uma distância que, nas três últimas décadas tendeu, de forma geral no mundo, a aumentar.

A frase pode ser entendida como um exercício legítimo de distanciamento em relação ao desastre das experiências do “socialismo real”: os gulags, as coletivizações forçadas que levaram a mortes em massa, as ditaduras de um só partido. (Sem embargo, é curioso notar como, enquanto o socialismo real “foi testado e falhou”, o capitalismo real, em seus mais de cinco séculos de colonialismo, escravagismo, miséria sistêmica, negação de direitos e destruição ambiental, sempre nos pede que o julguemos de acordo com seu estado ideal: “é verdade que há muitos problemas – mas um dia haverá abundância para todos!”.) Mas então “esquerda” foi apenas aquilo?

O que dizer dos desejos de igualdade, liberdade e reconhecimento que animaram os indivíduos cujas lutas formaram aquilo que se veio a chamar de esquerda – e que, em muitos casos, acabaram oprimidos pelas instituições (partidos, sindicatos, estados) que contribuíram para criar? Por trás do esforço para escamotear este patrimônio e tornar “esquerda” sinônimo dos horrores feitos sob este nome, existe, no uso cínico que muitos fazem da frase, o desejo de afirmar que lutar contra as divisões que existem e buscar-lhe alternativas inevitavelmente acabará em desastre. É do papel de quem não tem interesse em que as coisas mudem dizer que o “melhor é inimigo do bom” (Voltaire), que “não há alternativa”; é do papel de quem tem o desejo de mudanças não ajudá-los. E se os desejos de mudança ainda existem, é fundamentalmente porque as divisões não acabaram, pelo contrário, estão sempre ressurgindo, em outros limites e de novas formas. E se alguém pode e deve encarnar estes desejos, é justamente aqueles que “não têm” – renda, acesso, oportunidades, reconhecimento.

Aceitar que se reduza a esquerda histórica a seus horrores não seria, então, admitir que os opressores de hoje reduzam aqueles que ontem lutaram e aqueles que hoje desejam àqueles que ontem oprimiram? Sim, os horrores foram muitos. Mas a inventividade e ousadia de milhões de homens e mulheres, quer se identificassem como “esquerda” ou não,  que acreditaram na possibilidade de alternativas; e a riqueza daquilo que eles, por mais frágil e temporário que tenha sido, souberam construir – isto também foi o que historicamente se chamou de esquerda. Permitir que esta memória suma por trás da sombra de ditadores é enterrar estes mortos de novo, negar-lhes em morte os sonhos que apenas os vivos poderão, talvez, um dia redimir. É, ainda, negar aos vivos uma herança, e participar da negação da possibilidade de seus desejos por parte daqueles que são… “vivos demais”.

3 – A frase abre mão de redefinir o presente.

Com frequência, hoje, ela é usada de boa fé por quem pensa o seguinte: “existem partidos e instituições que se dizem de esquerda, mas se comportam como direita; e existem aqueles que não são de direita, mas que, mesmo que bem intencionados, estão completamente desconectados do presente e são, portanto, inteiramente irrelevantes”. Neste caso, ela está muito próxima do sentido que movimentos à margem da esquerda “clássica” nos anos 70 e 80 lhe emprestavam: ninguém nos representa, logo temos que fazer nossa própria luta. Existe uma diferença importante entre um momento e outro, contudo, que é precisamente o fato de que, entre aquele momento e agora, houve um outro em que o sentido de “nem esquerda nem direita” foi redefinido – e foi redefinido, como vimos, por quem empregava a frase com o intuito de dizer: “fora nós, não há alternativa, e quem não vê isto, está ultrapassado”.

Quanto à segunda parte do pensamento resumido no parágrafo anterior, é bom deixar claro: dizer que “esquerda” não é sinônimo de “dinossauro” não significa que o mundo não seja habitado por inúmeros dinossauros que se reivindicam de esquerda, aparentemente imunes a qualquer meteoro que os possa extinguir. Mas o que mais importa é a primeira parte, “a esquerda que assim se diz não o é, logo não existe esquerda”. Deixemos de lado sua lógica defeituosa (se eu digo “x não é de esquerda”, eu presumo a existência de alguma coisa chamada “esquerda” com que posso compará-lo); o sentimento que ela expressa é absolutamente real e amplamente compartilhado. O problema, contudo, é que ela aceita os termos impostos por quem se está criticando: se eu digo “não existe esquerda” porque um partido “que se diz de esquerda” não o é, estou consentindo exatamente aquilo que este partido quer me dizer – que ele “é a esquerda”, e fora dele “não há alternativa”. De maneira mais geral, isso significa admitir que a esquerda se reduz àquelas forças constituídas que reivindicam o nome; e, num sentido ainda mais geral, implica aceitar a redução da política à política representativa.

É aí que se encontra todo o impasse hoje: não apenas o sistema representativo colapsou muitas das diferenças que eram relevantes para que se distinguisse “esquerda” e “direita”, ele demonstra imensas dificuldades para reconhecer novas divisões surgidas no seio da sociedade. Mais do que isso, o próprio sistema hoje implica uma divisão, cada vez mais patente, entre “não-representados” e “representados demais”. É do papel do sistema, como mecanismo de auto-defesa, negar que esta e outras divisões existem. Mas o que importa, ainda e sempre, é que elas existem e implicam lados. São os lados que se opõem ao longo dessas divisões, e os sujeitos sociais que aí se confrontam, que devem definir, hoje, o que é esquerda e direita. Quando se diz que o atual momento está “para além de direita e esquerda”, o que se quer dizer é direita e esquerda dentro do espectro representativo representam a mesma (ou cada vez mais a mesma) coisa. Mas é só a este espectro que se reduz a política?

Afirmar os desejos de mudança de hoje passa por reconhecer as divisões que os sustentam, e que aqueles que não querem a mudança têm, portanto, todo interesse em esconder. E se a divisão mais aguda atualmente é que existe entre sub- e sobre-representados, representados “demais” e “de menos”, o primeiro passo para tornar o problema visível é, justamente, negar aquilo que a política representativa tenta afirmar: que ela é o limite absoluto, fora do qual não há nada. É preciso, portanto, dizer que a política se estende para além da política representativa e constituída; que ela hoje se dá, principalmente, naquelas divisões que a política constituída pretende ignorar. É preciso, sobretudo, apontar estas divisões e torná-las claras: há, sim, várias questões hoje que opõe um “eles” e um “nós”.

Com efeito, talvez seja justamente aquele caso em que a inexistência de divisões seria mais fácil de aceitar – o ambiental – o que melhor as exponha. Porque se é verdade que a mudança climática nos põe a todos, enquanto habitantes do mesmo planeta, no mesmo barco – como no Titanic, não estamos todos neste barco do mesmo modo. Pelo contrário, a questão ambiental evidencia diferenças claras quanto à distribuição de recursos, custos e efeitos. A distribuição dos recursos marca divisões tanto entre países e regiões do mundo quanto internas à países e mesmo cidades: tanto internacional quanto nacional e localmente, alguns consomem muitos recursos enquanto outros consomem muito poucos. Os custos, igualmente, se distribuem conforme as linhas da divisão internacional do trabalho, mas também regional e socialmente dentro de cada país: o passivo ambiental e social da exploração de novos recursos cai desproporcionalmente sobre alguns países (o petróleo na Nigéria), regiões (o fracking na Carolina do Norte, nos EUA; a região norte, no Brasil) e, principalmente, um determinado tipo de população (pobres, indígenas); os lucros e benefícios vão desproporcionalmente para países, regiões e grupos mais ricos. Finalmente, os efeitos da mudança climática afetam desproporcionalmente os mais pobres, desde os impactos sobre populações em áreas de risco a migrações forçadas e a suba do preço de alimentos por conta de eventos climáticos extremos. Em outras palavras, a questão ambiental é inteiramente atravessada por questões sociais e políticas, porque ela é inteiramente atravessada por divisões sociais e políticas. Nós podemos querer nos iludir quanto a isto; mas o poderosíssimo lobby exercido pelas indústrias automobilística e petrolífera, do agribusiness, da especulação imobiliária e das construtoras, no Brasil e em todo mundo, sabe muito bem que este é o caso.

O uso de “nem esquerda, nem direita” é perigoso, portanto, porque um de seus sentidos – o principal – consiste em negar a existência de divisões. Se eu e meu adversário usamos a mesma frase, mas ele tem mais poder que eu para definir seu sentido, é hora de eu começar a usar outras.

***

Em 1997, um grupo de movimentos sociais, organizações e intelectuais franceses assinou um manifesto dirigido ao Partido Socialista, que então se apresentava às eleições, com o título: “Nós somos a esquerda”. Em outras palavras, o que eles afirmavam era: “se vocês querem dizer que nos representam e esperam contar com nosso voto, esta é a plataforma que vocês devem adotar”.

Não se trata de propor imitar este exemplo, que, em retrospecto, não foi bem-sucedido, mas sim de ver aí um gesto mais radical que a repetição de uma frase de sentido equívoco e que serve tão bem ou melhor àqueles que têm intenções contrárias às nossas. Mais radical porque, ao invés de situar-se nos termos do debate impostos por aqueles que queremos criticar, se situa diagonalmente a eles, expondo seu ponto cego e tornando a raiz do problema visível de uma forma que a outra frase (que pode ser entendida de muitas formas) não consegue. Trata-se, neste caso, de afiançar a continuidade da existência de divisões e choques de interesse, e de expor o limite da democracia representativa, que cada vez mais trabalha para escamoteá-las; de afirmar que são estas divisões, e não a trajetória passada deste ou daquele político ou deste ou daquele partido, que deve definir por onde passa hoje a linha que separa “esquerda” e “direita” hoje; e, finalmente, de dizer que é a partir desta redefinição que se forma, por trás da “esquerda” – instituída, representativa –, uma outra esquerda que ainda não se fez ouvir, e que se fará ouvir através de ou apesar das instituições que reivindicam este nome.

Trata-se, em suma, de não aceitar a imagem que nos oferecem do presente e do passado, mas de dedicar-se ativamente a uma nova triagem que, descobrindo virtualidades passadas e presentes que se pretendia ocultar, abre novos futuros possíveis. E, no processo, de reivindicar-se um “nós”, de criar-se um “nós”.

Qual seria o conteúdo de um tal “nós”, no Brasil e no mundo, hoje?

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3 Responses to Três motivos para não dizer “nem esquerda, nem direita”

  1. A análise me parece muito pertinente e de longo alcance. Eu acrescentaria um detalhe: que o uso da expressão “nem de esquerda, nem de direita” no contexto da criação de um novo partido pode ter, dentre outras motivações, propósitos eleitorais. É alguém querendo romper com seu passado político-partidário,

  2. raulpmaciel says:

    Bom ler isso. Senti-me verdadeiramente afetado, pois eu pessoalmente sou dos que não acreditam mais em esquerda ou direita. Não que não existam, mas que em ambos os extremos, tudo o que vejo é deplorável, quando não imbecil e ignorante.

    Tampouco seria das pessoas que me colocaria ao “centro”. Acho que, como você coloca, há uma reconfiguração e, mais do que se dizer que é ou não de esquerda, direita, etc., é preciso explicar e compreender essa reconfiguração.

    Prefiro entender as pessoas como conservadoras, reacionárias, libertarias e liberais e, a partir desses termos, soma-los para chegar a variáveis e aberrações como, por exemplo, um “liberal-conservador”.

    De todo modo, eu sou daqueles que vê em conceitos, termos e palavras apenas formas – muito arcaicas e complicadas, porém ainda quase sempre a melhor forma – que encontramos de explicar nosso mundo, a sociedade, a vida, as coisas. Acredito que as palavras não são nossa única forma de pensamento. Podemos, por exemplo, pensar (sentir) com imagens (sonoras, olfativas, visuais, do tacto).

    O ponto onde quero chegar é o seguinte. Concordo com você praticamente em tudo. Acho que essa frase é muito perigosa e tem sido usada a proveito principalmente da dita direita.

    Com minha curta experiência aqui na França pude entender algumas coisas.

    Aqui os candidatos à presidente se colocam perfeitamente nesse eixo “direita-centro-esquerda”, então, há o candidato das extremas, o do centro-lado e o do centro.

    O que pude notar por aqui é que, presos a esse posicionamento (obsoleto na minha opinião), NENHUM deles trouxe ao povo as respostas que esperavam. Como consequencia, você pode ver Hollande ser eleito e, poucos meses depois, já cair em descrédito completo de todos, mesmo aqueles que supostamente se encontram no mesmo perfil dele, e que o elegeram.

    Minha hipótese ai é que a conjuntura nacional, mas também global, os desafios que o mundo atual nos apresenta não cabem mais nesse eixo bidimensional que foi esabelecido há mais de dois séculos atrás. Acredito que esse eixo é apenas uma forma de ler uma realidade que, efetivamente, é muito mais complexa e que não cabe mais nesses dois eixos e nesses conceitos.

    Isso que digo que a população não encontrou as respostas que esperava me pareceu muito nítido. Pois acompanhei as eleições brasileiras e nos EUA e para mim ficou nítido isso, que os vencedores falaram muito precisamente aquilo que a população majoritária esperava ouvir (e isso digo sobre discurso, não discuto a prática, ok?).

    Você pense só a situação em que o país se encontra hoje. Uma crise de representatividade imensa. As pessoas ligam a TV e vêem um presidente que não os representa. Aqui isso é ainda mais grave, penso eu, tendo em vista o passado deles e o fato de que o presidente tem ainda mais especificamente essa função, já que eles contam com um primeiro ministro também.

    Tudo isso que escrevi não busca quebrar seus argumentos e acredito que não quebre. Continuo concordando que usar essa frase e essa ideia pode ser muito perigoso e pode ser aproveitado por quem é de má fé.

    Todavia, insisto contigo. Vivo perdido entre pessoas que se colocam claramente em um dos dois lados. Não encontro par ao meu discurso em nenhum dos dois lados e tampouco acredito nessa ideia de centro.

    Sinceramente, tampouco acredito no projeto que a Marina está tentando vender nesse projeto da Rede.

    Quando vou explicar meu posicionamento sobre política, costumo dar uma de Lula e fazer uma comparação com o meu posicionamento no futebol.

    Eu sou apaixonado por futebol, sou Corinthiano, tenho que confessar, mas não sou torcedor típico, tampouco vira-casaca. Simplesmente, eu aprecio demais o jogo, as reviravoltas, os dramas, o imponderável mesmo daquilo tudo. Logo, antes de torcer por times, eu fico diante da TV e aprecio jogadas, aprecio os vai-e-vems do jogo. Adoro observar como o fator emocional pode mudar a partida. E, no meio disso tudo, mais do que times, eu gosto de admirar pessoas: técnicos, árbitros, jogadores em especial. Tenho alguns sim pelos quais sou admirador, quando não apaixonado, e com quem estabeleço uma relação de ligação que passa dessa linha da razão ou dessa linha um tanto blasé da admiração e da apreciação.

    Com a política é a mesma coisa. Não tenho partido. Acho que dificilmente eu venha a ter. Mas admiro políticos em especial ou mesmo, em alguns, algumas ações, algumas posturas ou algumas qualidades.

    Vou parar por aqui, já prolonguei muito tudo isso. Escrevi pois encontrei aqui no seu texto um ponto de partida para discutir essas minhas próprias inquietações à respeito dessa chave esquerda-direita e acredito que você possa me ajudar a entender melhor tudo isso.

    Me desculpe, mas como você se chama? Encontrei seu e-mail, mas não seu nome no About.

    Abraços,
    Raul

  3. raulpmaciel says:

    Ah, uma outra coisa que lembrei e acho pertinente.

    Outra bandeira que tem sido levantada por conservadores (obviamente, apenas nos últimos 10 anos) é a da luta contra a corrupção. Você percorre páginas e páginas no Facebook, blogs, etc. voltados para esse tema. Vai ver duas coisas: evidentemente, encontram muito respaldo popular. Afinal, quem não é contra a corrupção? (ainda mais quando ela se encontra bem longe de nós, lá no congresso, por exemplo) Outra coisa que você deve notar é que, em meio a mensagens apelativas desse tipo, vai ver também outras mensagens, muitas vezes mascaradas, bastante conservadoras e, incisivamente ou exclusivamente voltadas contra o PT ou contra Lula em particular.

    Não que não se possa condenar o PT ou Lula. Mas acho interessante notar a instrumentalização desse ideal ‘contra a corrupção’. Algo que, ao meu ver, ocorre de forma quase intuitiva na maioria desses casos, por parte de conservadores.

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