Dois comentários sobre “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”

Aproveito para tirar as teias de aranha deste blog tão negligenciado para dizer algumas coisas que gostaria de ter dito ontem durante o debate que se seguiu à exibição do filme “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”, na Sala Redenção, UFRGS, Porto Alegre. O evento, que teve um excelente público de umas 250 pessoas, foi organizado por Cleyton Gerhardt, do PGDR/UFRGS; o debate contou com André d’Elia, diretor do filme, e Lorena Fleury, que está concluindo uma tese de doutorado sobre o conflito de Belo Monte no PPG em Sociologia da UFRGS.

No debate, houve uma diferença de posição entre os dois: o primeiro enfatizava o que lhe parecia a falta de planejamento, a lógica imediatista e ad hoc do governo, que fazia com que projetos fossem “mal pensados”; a segunda questionava esta hipótese e chamava atenção para o quanto de antecedência  um projeto destes exige, o tempo em que Belo Monte foi gestada (desde o governo Geisel), e seu significado dentro de um projeto de desenvolvimento e de inserção brasileira no mercado internacional.

O próprio André se contradisse num determinado momento, mencionando o Plano Decenal de Expansão de Energia, que, ainda que reduzindo a participação da energia hidrelétrica na matriz nacional, prevê vários barramentos na Amazônia (o Complexo Tapajós sendo o mais notório deles), alguns dos quais em áreas que hoje são de proteção ambiental. Mas o que eu gostaria de ter dito (e não disse porque minha intervenção no debate já se estendera demais) é que existe um conceito econômico que permitiria conciliar as duas posições.

Este conceito é o de vantagem comparativa, que se refere à capacidade de um país, empresa ou indivíduo de produzir um bem ou serviço a um custo mais baixo que outro país, empresa ou indivíduo. É basicamente este o conceito que embasa a lógica do “em time que está ganhando não se mexe” quando se projeta a política de comércio exterior de um país: se nós temos uma melhor inserção no mercado com um determinado tipo de produto, vamos produzir mais do mesmo.

É aí que está o lado imediatista daquilo que é, como salientou a Lorena, um planejamento de longo prazo. O Brasil, nos últimos dez anos, num período de alta dos preços das commodities puxada por uma economia chinesa superaquecida, fez aquilo que era mais fácil: reforçar nossa vocação de fornecedor de produtos agrários e minerais e, com isso, alavancar o crescimento econômico. Se, por um lado, isto criou as condições para a expansão dos programas sociais e a melhoria real na qualidade de vida de uma boa parte da população, por outro lado está armando uma bomba que em algum momento ou terá de ser desarmada, ou acabará estourando.

A bomba, por um lado, é econômica: nossa dependência cada vez maior de produtos de baixo valor agregado, o que implica um descompasso grande entre o valor de nossa produção e aquilo que precisamos importar: alta tecnologia vale mais que soja, logo é preciso produzir muito mais soja para comprar alta tecnologia. Por outro lado, é política: atrelando a economia à mineração e ao agribusiness, concede-se um peso político cada vez maior a estes grupos e seus representantes. Isto ficou claro na série de derrotas impostas pela bancada ruralista ao governo com o Código Florestal (onde a posição do governo já estava bem aquém das demandas ambientais), e é evidente no fato que a verdadeira transformação do campo, nesta década, foi feita não pela agricultura familiar ou pela base social tradicional do PT, mas pelo agronegócio. E é, também, sócio-ambiental: é preciso avançar a fronteira agrícola e extrativa, de onde, por exemplo, os conflitos crescentes com povos indígenas. De novo, trata-se de vantagem comparativa: um dos fatores que torna o Brasil tão competitivo no mercado de commodities é sua imensa reserva de recursos naturais. Por isto, também, o país é um dos maiores interessados na criação dos marcos internacionais da dita “economia verde”, para entrar com força no mercado de “serviços ambientais”.

Estes são problemas que tendem a se agudizar à medida em que a crise na Europa e nos EUA se estende e a locomotiva chinesa desacelera (e com ela, ainda mais, a economia mundial). O modelo de governança implementado pelo PT foi bem-sucedido porque, surfando um momento internacional favorável, pôde promover uma fórmula em que (quase) todo mundo se dava bem: os ricos ficavam mais ricos e os pobres, menos pobres. Se as condições tornarem a fórmula insustentável, de que lado arrebentará a corda? Esta, em última análise, é a pergunta que a bomba nos lança, à maneira de esfinge.

Falar de imediatismo salienta aquilo que há de falho na racionalidade por trás de algo como Belo Monte — e é de uma racionalidade que se trata, mesmo que ela seja míope e oportunista e, como o filme deixa claro, tenha tudo a ver com a expansão de indústrias eletrointensivas (como a produção de alumínio já instalada na região) e a criação de uma cabeça-de-ponte para atividade mineiras na Amazônia, e nada com o aumento do consumo doméstico. Se o projeto é “mal pensado”, é por conta de todos os interesses e variáveis que desconsidera, não porque falte planejamento; pelo contrário, este existe em grande quantidade, mas é feito sempre da mesma forma e de acordo com os mesmos interesses.

Mas aqui entra o segundo comentário que eu gostaria de ter feito: é preciso saber distinguir os interesses e atores na sua condição de indivíduos, e estes mesmos atores e indivíduos na sua posição sistêmica.

Num país como o Brasil, em que as elites se renovam muito raramente, é muito fácil cair na fulanização; quando o filme mostra, por exemplo, como o grupo ligado a José Sarney controla o setor energético desde o governo militar, fica fácil concluir que o problema se resume ao comportamento de algumas pessoas. Mas é preciso perceber as dinâmicas sistêmicas que fazem com que, mesmo quando novas elites políticas surgem (o caso mais óbvio sendo, é claro, o PT), o mais fácil seja acomodar-se às coisas como elas já estão, ou mudá-las apenas de maneira a favorecer o funcionamento do sistema.

De novo, trata-se de vantagem comparativa, política (mais vale favorecer quem já está instalado) e econômica. Num momento de crise mundial, em que, no norte global, o capital encontra dificuldade de se realizar (isto é, perfazer o ciclo pelo qual dinheiro gera mercadoria que gera mais dinheiro), em que a demanda por energia cresce, e um novo mercado “verde” se descortina como uma das promessas de acumulação para os próximos anos, o Brasil é uma das bolas da vez. O capital é como o vento, que se desloca naturalmente rumo a uma zona de baixa pressão atmosférica. Falar na força da causalidade sistêmica significa que o que está acontecendo não é um mero sinal da “maldade”, “falta de ética” ou “imoralidade” de alguns indivíduos: conforme dito acima, está se fazendo simplesmente aquilo que é mais fácil, surfando as ondas como elas vêm, mesmo que isso implique criar uma série de armadilhas a médio prazo. Pode-se pensá-lo em termos dinâmicos: o sistema tem uma inércia própria que só uma força muito grande — que o PT já não tinha ou não pretendia usar quando chegou ao poder — é capaz de vencer.

O problema que a crise ambiental levanta é, justamente, que basta a inércia do sistema — isto é, basta tudo seguir como está — para as coisas piorarem vertiginosamente. Chamar atenção para isto não deve ser tomado como uma desculpa para o desalento (a conclusão de que não há nada a se fazer), mas como uma apreciação realista dos desafios que possa nos conduzir a pensar seriamente sobre aquilo que é preciso fazer para estarmos a altura deles. Chamados a uma “revolução ética”, à “transformação pessoal” e a “iniciativas individuais” são bem-vindos, mas ficam apenas no nível daquilo que Glauber Rocha chamaria de “psicologia burguesa” das motivações de atores e indivíduos. Sob pena de dizer o óbvio, para mudar um sistema, é preciso uma mudança sistêmica — e esta é necessariamente um projeto coletivo.

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One Response to Dois comentários sobre “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”

  1. Denise Silva says:

    Nem isso basta! (um projeto coletivo) – creio.

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